A resistência dos povos e comunidades tradicionais do Piauí se configura como um processo contínuo de luta e afirmação diante de um contexto de negação de direitos, expropriação de terras e invisibilização de culturas e modos de vida. Enraizadas em práticas coletivas e tradicionais, essas populações mantêm uma relação estreita de troca, espiritualidade, simbologia, cuidado e afeto com o território. Trata-se de uma relação espiritual, cultural e simbólica, onde o território é compreendido como espaço de vida, memória e identidade (Almeida, 2011). A resistência do Coletivo dos Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí, portanto, surge como resposta às múltiplas ameaças impostas por projetos de infraestrutura, expansão do agronegócio, grilagem de terras, especulação imobiliária, mineração e impactos ambientais (Little, 2002).
A defesa dos territórios tradicionais é também a defesa de modos de vida autônomos, que valorizam o saber ancestral, o cuidado com a natureza e o bem viver desses povos. Além disso, a luta dessas comunidades está relacionada à busca pelo reconhecimento legal de suas identidades e de seus territórios, pelo direito ao acesso e à permanência na terra. Dessa forma, a resistência dessas populações é legítima e necessária. Ela representa a manutenção de uma diversidade cultural e ecológica fundamental para a construção de uma sociedade mais justa, plural e com sustentabilidade.
Histórico e resistência do Coletivo no Cerrado do Piauí
A expansão do agronegócio, que causa desmatamentos e incêndios, tem acelerado a degradação do bioma Cerrado, provocando perda de biodiversidade, contaminação das águas e deslocamento forçado de populações tradicionais (Silva et al., 2019; Fundação SOS Mata Atlântica; Inpe, 2023). No Piauí, sobretudo na região sul, onde se localiza parte do Cerrado, as populações tradicionais sofrem violência e violações de direitos, expulsões, degradação ambiental e ataques aos modos de vida.
A pesquisa da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos (2018) mostra que o avanço do agronegócio ocorre por meio de incentivos estatais, que favorecem empresas nacionais e estrangeiras, inclusive do setor financeiro internacional. Essas empresas atuam no mercado de terras no Brasil, gerando especulação com terras agrícolas, o que estimula a expansão de monocultivos, destruição do Cerrado e violência contra os povos e comunidades que vivem na região.
Conforme relatos:
“[…] quando o agronegócio chegou aqui eles começaram a proibir o uso das áreas onde nós trabalhávamos. Nós não podíamos trabalhar, plantar, soltar o gado, daí começamos a perceber que isso iria impactar muito a nossa vida. O agronegócio causou a redução das chuvas e a chegada das pragas, que são uma série de mudanças que nós enfrentamos.”1 (Juarez Celestino, da Comunidade Melancias – Gilbués-PI)
“Antigamente era muito bom, tranquilo, porque tinha bastante água e chovia bastante. Havia muitas lagoas cheias de água e peixe. Hoje a maioria das lagoas virou mata, aterrou. Só temos quatro lagoas e ainda estão aterradas, quase não tem mais água.”2 (Maria Zulmira Akroá Gamela, do Território Indígena Vão do Vico – Santa Filomena-PI)
Diante dessa realidade, a organização coletiva tem se consolidado como uma das principais estratégias de resistência dos povos e comunidades tradicionais no Piauí, especialmente frente às ameaças constantes ao território, à cultura e aos modos de vida. Essas formas organizativas são fundamentais para garantir o acesso a políticas públicas, reivindicar a regularização fundiária e enfrentar a invisibilidade institucional que historicamente marca essas populações (Brasil, 2007).
É nesse chão de luta e esperança que nasce o Coletivo dos Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí, fruto de um processo de escuta, articulação e denúncias em diversas esferas nacionais e internacionais. Essa articulação ampliou a visibilidade dos conflitos no Cerrado e a construção conjunta entre as comunidades e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). A criação do Coletivo foi uma resposta organizativa às crescentes ameaças impostas pelo agronegócio, que eram comuns às comunidades.
Em junho de 2018 foi criado o Coletivo das Comunidades Impactadas pelo Agronegócio, composto por oito territórios, com o lema: “Todos por Todos”, afirmando o compromisso da luta comum, para fortalecer as comunidades, unir forças e construir uma organização que representasse as necessidades e especificidades dos territórios, lutando pela regularização coletiva das terras e do território. O Coletivo se consolidou com a realização do I Encontro das Comunidades Impactadas pelo Agronegócio, realizado no mês de dezembro do mesmo ano. Anos depois, após reflexões acerca das identidades do Coletivo e de suas prioridades, passou a se chamar “Coletivo dos Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí”, com o lema: “Insistir e Resistir no Direito de Existir.”
Atualmente o Coletivo é formado por 15 territórios com 24 comunidades e os seguintes povos tradicionais: indígenas, quilombolas, ribeirinhos/as, brejeiros/as, assentados/as da reforma agrária, sem terras e veredeiros. Somamos 400 famílias, mais de 2 mil pessoas atendidas diretamente e em torno de 5 mil pessoas indiretamente. A coordenação colegiada é formada por sete representantes dos territórios.

Fonte: Oliveira (2025). Pesquisa em andamento.
A resistência organizativa do Coletivo dos Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí contribui para proteger os territórios contra o agronegócio e para preservar os saberes ancestrais, conservar a biodiversidade e a autonomia das comunidades (CPT-PI, 2022). A organização coletiva se configura como instrumento de resistência ativa e construção de alternativas de sustentabilidade, reafirmando a dignidade, a cultura e o protagonismo dos povos tradicionais do Piauí diante das violações de seus direitos.
Ação política da organização coletiva
O Coletivo é um espaço de resistência das comunidades em luta, com o objetivo de dar visibilidade, denunciar as violações de direitos e atuar na defesa dos territórios e dos modos de vida dos povos do Cerrado. As principais lutas do Coletivo são: defesa dos territórios e dos modos de vida tradicionais; demarcação e regularização fundiária dos territórios; combate à violência no campo e à grilagem de terras; conservação da biodiversidade do Cerrado. As principais estratégias de resistência e de afirmação de direitos são: parcerias e atuação em Rede; denúncias; formação continuada; promoção do Bem Viver.
O Coletivo realiza encontros para o fortalecimento da unidade, estratégias de ações, denúncias das violações ambientais e sociais, demandas de políticas públicas e regularização fundiária, troca de saberes. Esses encontros são momentos importantes nos quais se reafirma a luta pela defesa da vida, dos saberes ancestrais, da permanência na terra e território e da preservação do Cerrado.

Conclusão
A resistência coletiva dos Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado do Piauí reafirma a centralidade do território como espaço vital de reprodução social, cultural, espiritual e econômica. A trajetória de luta construída por meio do Coletivo evidencia a complexidade dos desafios enfrentados, como grilagens de terras, violência e impactos ambientais causados pelo avanço do agronegócio. Por outro lado, o Coletivo representa a força da unidade e da ação coletiva como estratégias comunitárias de enfrentamento, organização e afirmação de direitos.
Nesse contexto o Coletivo se configura como uma resposta político-organizativa fundamentada em práticas de solidariedade, escuta, articulação em rede e formação continuada, fortalecendo os laços territoriais e os processos de autoafirmação identitária. Sua atuação demonstra a capacidade dessas comunidades de se reinventarem coletivamente para construir alternativas baseadas no bem viver e na valorização dos saberes ancestrais. Diante das violações de direitos causadas pelo agronegócio, os povos do Cerrado insistem em existir, resistir e construir futuros.
Esta experiência demonstra a importância de apoiar as formas próprias de organização e resistência dos povos e comunidades tradicionais, que são verdadeiros guardiões da sociobiodiversidade, da memória e da justiça ambiental. Assim, valorizar e apoiar a luta desses povos é uma demanda ética e política. É reconhecer a importância de suas formas de viver, produzir e se relacionar com o mundo. Além da urgência da produção de conhecimento comprometido com a justiça socioambiental, estas formas de vida precisam ser respeitadas e protegidas.
Ariomara Alves Pessoa é representante da coordenação do Coletivo de Povos e Comunidades Tradicionais do Cerrado no Piauí. Teresinha de Jesus Soares de Menezes Pereira é tecnóloga em Gestão Ambiental, pós-graduanda em Sustentabilidade pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), educadora, comunicadora popular e agente da Comissão Pastoral da Terra no Piauí.
Referências
AGUIAR, T. de J. A.; MONTEIRO, M. S. L. “Modelo agrícola e desenvolvimento sustentável: a ocupação do cerrado piauiense”. Ambiente & Sociedade, Campinas, v. 8, n. 2, p. 161-178, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/a/hW5qM7c8wrTTVGDmRkJxpxP/?lang=pt. Acesso em: 15 ago. 2025.
ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Terras tradicionalmente ocupadas: processos de territorialização e movimentos sociais. Manaus: UEA Edições, 2011.
BRASIL. Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Brasília: SEPPIR/MMA, 2007.
CPT-PI. Relatório de Conflitos no Campo – Piauí. Comissão Pastoral da Terra – Piauí, 2022. Disponível em: https://cptnacional.org.br/documento/conflitos-no-campo-brasil-2024/. Acesso em: 15 ago. 2025.
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA; INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Relatório Anual de Desmatamento no Cerrado. São Paulo, 2023.
LITTLE, Paul. “Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma antropologia da territorialidade”. Série Antropologia, Brasília: UnB, n. 322, 2002.
PITTA, Fabio; CERDAS, Gerardo; MENDONÇA, Maria Luisa. “Imobiliárias agrícolas transnacionais e a especulação com terras no Brasil”. Disponível em: https://www.social.org.br/index.php/pub/revistas-portugues/207-imobilia-rias-agri-colas-transnacionais-e-a-especulac-a-o-com-terras-na-regia-o-do-matopiba.html. Acesso em: 15 ago. 2025.
SILVA, Juliana C. da et al. “Expansão agropecuária e os impactos no bioma Cerrado: um panorama histórico e ambiental”. Revista Ciência e Sustentabilidade, v. 5, n. 2, p. 89-104, 2019.
1 Entrevista concedida às autoras, 2025.
2 Entrevista concedida às autoras, 2025.






