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Mecanismos e impactos da especulação com terras no Cerrado do Matopiba

O Cerrado guarda uma enorme biodiversidade de espécies de plantas e animais. O bioma é chamado de “berço das águas”, pois abriga nascentes dos principais rios do país. Sua vegetação possui raízes muito profundas que formam importantes reservatórios de água subterrânea. As comunidades rurais do Cerrado – indígenas, quilombolas, brejeiras, ribeirinhas e camponesas – guardam conhecimentos ancestrais sobre o cuidado com a terra, com a biodiversidade e com as fontes de água.

por Maria Luisa Mendonça e Fábio Pitta

A região do Cerrado que inclui os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (Matopiba) tem sido alvo da especulação imobiliária agrícola e da expansão do agronegócio, que conta com incentivos fiscais e créditos subsidiados pelo Estado para financiar monocultivos de commodities – mercadorias negociadas nos mercados financeiros futuros. A expansão territorial da produção de commodities é estimulada por agentes financeiros transnacionais que se associam ao agronegócio no Brasil. O conhecido mecanismo de grilagem de terras é utilizado para facilitar a atuação de empresas internacionais no mercado local de terras. Este processo intensifica a exploração do trabalho e a violência contra povos indígenas, quilombolas e camponeses.

Em nossas pesquisas sobre a expansão de monocultivos para a produção de agrocombustíveis1 notamos que, após a crise econômica mundial de 2008, houve uma tendência de queda dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional. Entretanto, o preço da terra agrícola no Brasil manteve uma tendência inflacionária, o que nos levou a perceber o processo de “descolamento” entre o mercado de terras e o mercado de commodities agrícolas:2 mesmo em momentos de queda dos preços internacionais decommodities, o preço da terra manteve a tendência elevada, o que estimulaa grilagem e o desmatamento no Cerrado. Nossos estudos sobre empresas imobiliárias rurais revelaram os mecanismos e o contexto deste processo especulativo no Matopiba3.

Efeitos da crise econômica de 2008

A elevação dos preços das commodities possibilitou, a partir de 2002, maior endividamento das agroindústrias no Brasil, que passaram a contrair dívidas em dólar com a expectativa de exportação futura. Isso aconteceu, por exemplo, com as usinas exportadoras de açúcar junto a empresas de comercialização de commodities agrícolas. As usinas fizeram promessas de produção futura para justificar sua expansão territorial e mecanização, o que elevou o preço da terra.

As promessas de produção para pagar dívidas anteriores fomentaram novo endividamento e também nova expansão territorial do agronegócio. A partir de 2008, quando o preço do açúcar começou a cair junto à queda dos preços das commodities em geral nos mercados internacionais em razão da crise econômica4, diversas usinas entraram em falência. Porém, a queda nos preços das commodities não afetou o preço da terra agrícola no Brasil, que continuou a subir e a atrair empresas financeiras internacionais em uma tendência especulativa que foi realimentada através de mecanismos financeiros. Os impactos deste processo continuam na atualidade.

A crise econômica mundial que se tornou aparente em 2008 revelou o efeito dominó causado pela mobilidade de capitais e, ao mesmo tempo, a centralidade do papel dos Estados nacionais frente a ondas especulativas, como no caso das bolhas nos mercados imobiliários dos Estados Unidos e da Europa. A crise evidenciou, principalmente, a falência das políticas de “austeridade” adotadas por países que optaram por promover cortes em investimentos governamentais, aprofundando ainda mais a recessão econômica.

A crise econômica de 2008 gerou uma mudança no perfil do agronegócio no Brasil e estimulou a presença de empresas transnacionais de diferentes setores, não só agrícolas, mas também financeiras. Tal processo estimulou fusões e aquisições, causando maior concentração de capitais. As empresas optam por tal procedimento com a intenção de aumentar seu capital e demais ativos, como máquinas, terras, subsidiárias, entre outros. Assim, o preço de suas ações passa a ser parte fundamental do valor de mercado e torna-se parâmetro para que consigam crédito. Estas são algumas das principais tendências atuais da relação entre o capital financeiro internacional, o mercado de terras e seus impactos no campo brasileiro.

Financeirização e dívidas do agronegócio

Nas décadas recentes, a financeirização da agricultura facilitou a entrada de capitais estrangeiros que especulam no mercado de terras agrícolas. Além disso, o mercado de futuro gerou a ficcionalização de capitais com apostas futuras sobre a produção, especulação no mercado de câmbio e em outros mecanismos financeiros como derivativos.

É possível entender o papel do capital financeiro como uma forma de “terceirização” nos negócios com terras. Da mesma forma como o trabalho terceirizado no corte de cana é utilizado para isentar usineiros da responsabilidade pelas condições degradantes e dos casos de trabalho escravo. O mecanismo de “terceirização” consiste em criar diversas empresas com os mesmos administradores, assim como subsidiárias, fazendo parecer que são de proprietários distintos.

Para continuar a receber créditos especiais e subsídios, o agronegócio utiliza a justificativa de sua suposta contribuição para a economia. Porém, o cálculo de sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) não inclui rolagem de enormes dívidas e outros impactos, como grilagem de terras e destruição ambiental. Tanto historicamente quanto na atualidade, a manutenção do sistema agrícola extensivo, baseado em monocultivos para exportação, demanda uma política estatal que gera passivo econômico5.

Empresas nacionais e internacionais do agronegócio formam alianças com oligarquias rurais e com empresas financeiras e fundos de pensão internacionais. A concentração de capitais e a formação de monopólios na agricultura são mecanismos utilizados por empresas do agronegócio para demandar acesso a créditos bancários a juros abaixo da média do mercado e outros subsídios estatais, o que gera maior dependência do setor agrícola em relação ao mercado financeiro. Tal processo aprofunda o papel subordinado do Brasil como fornecedor de matérias-primas agrícolas e minerais a partir da demanda externa. Este modelo gera endividamento do Estado para cobrir custos de produção com maquinário e insumos químicos.

Grilagem de terras e impactos da expansão do agronegócio

A formação de fazendas na expansão da chamada “fronteira agrícola”, como no caso do Matopiba, ocorre geralmente em terras públicas, por meio do cercamento de áreas até então sem título de propriedade. Na maioria das vezes isso acontece sobre terras devolutas, do Estado, nas quais comunidades rurais têm vivido e produzido alimentos há centenas de anos por meio da posse. A principal maneira de se formar uma fazenda sobre terras devolutas é através da grilagem.

As chapadas do Cerrado têm sido devastadas pela expansão do agronegócio, que causa desmatamento, poluição das fontes de água com agrotóxicos e irrigação mecanizada. Estas terras eram utilizadas por comunidades rurais para criação de animais, coleta de frutos e de medicamentos tradicionais. Nos últimos anos, o agronegócio cercou estas áreas e impediu que as comunidades continuassem a realizar essas atividades nas chapadas. As comunidades que habitam os vales ou “baixões” continuam a resistir para proteger seus territórios e demandam que o Estado garanta seu direito constitucional através da titulação coletiva de suas terras.

Ao mesmo tempo, as comunidades denunciam mecanismos que facilitam a grilagem de terras, como incentivos fiscais para o agronegócio e falta de fiscalização por parte dos órgãos ambientais. Além dos impactos locais, a expansão financeirizada do agronegócio gera dívidas econômicas, sociais e ambientais para toda a sociedade. A destruição causada pelo agronegócio já chega a um ponto de não retorno no Cerrado e na Amazônia. Como estes biomas estão interligados, sua devastação causa mudanças no regime de chuvas, com crises extremas de seca e inundações, tanto no Norte e Nordeste quanto no Sul e Sudeste do país. A destruição do Cerrado afeta as nascentes de grandes rios e fontes de água subterrânea. O desmatamento causado pelo agronegócio acelera catástrofes climáticas no Brasil e em outros países, afetando também o nível de produtividade da agricultura.

A expansão do agronegócio causa a substituição da produção de alimentos por monocultivos de commodities agrícolas. O efeito dessas políticas é global, pois o sistema agrícola baseado na produção de monocultivos extensivos, dependentes de insumos químicos e de grande quantidade de água, se constitui em um dos principais fatores que causam mudanças climáticas.

A destruição do Cerrado mudou o regime pluviométrico da região, que agora sofre com a seca. Muitos rios secaram, pois suas nascentes foram destruídas pelas plantações de soja, que retiram água para os pivôs centrais em estruturas de irrigação e poluem o lençol freático, afetando o abastecimento nas comunidades rurais que dependem dessa água para consumo humano, para pesca e para produção de alimentos.

O uso de agrotóxicos pelas empresas do agronegócio também causa graves impactos socioambientais. Os agrotóxicos são muitas vezes despejados de aviões, o que contamina os rios e o lençol freático, mata peixes e roças das comunidades rurais, além da contaminação de alimentos e do aumento da incidência de doenças como câncer. O uso de insumos químicos nas fazendas do agronegócio gera desequilíbrio ambiental e aumenta a quantidade de insetos nas roças das comunidades próximas, devastando sua produção de alimentos. O desmatamento do Cerrado extingue a fauna e a biodiversidade.

Direito à terra e agroecologia

O discurso sobre a suposta “vocação” agrícola brasileira, no sentido da defesa do modelo econômico baseado nos monocultivos para exportação, tem sido reforçado repetidamente nos meios de comunicação. Este discurso omite o fato de que a expansão territorial do agronegócio visa compensar a perda de produtividade causada pela destruição dos solos, da biodiversidade e das fontes de água.

Por outro lado, o papel da produção agrícola das comunidades camponesas para o mercado local, da agroecologia e da agricultura de subsistência é comumente subestimado ou mesmo ignorado nos dados econômicos oficiais, apesar de garantir o sustento da maioria da população com alimentos saudáveis. Essas comunidades mantêm práticas agroecológicas que são fundamentais para a proteção do meio ambiente.

O Cerrado guarda uma enorme biodiversidade de espécies de plantas e animais. O bioma é chamado de “berço das águas”, pois abriga nascentes dos principais rios do país. Sua vegetação possui raízes muito profundas que formam importantes reservatórios de água subterrânea. As comunidades rurais do Cerrado – indígenas, quilombolas, brejeiras, ribeirinhas, camponesas – guardam importantes conhecimentos sobre o cuidado com a terra, com a biodiversidade e com as fontes de água6.

Este é um momento crítico e urgente de resistência de comunidades rurais que demandam o direito à terra e a proteção de seus territórios. A organização das comunidades no Cerrado é fortalecida pela solidariedade e unidade com movimentos sociais que defendem a agroecologia e a construção da soberania alimentar.


Maria Luisa Mendonça é doutora em Geografia Humana pela USP e codiretora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Fábio Pitta é coordenador de Projetos da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, doutor em Geografia pela USP e pesquisador visitante no Departamento de Geografia da USP.

Referências

DELGADO, Guilherme. Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio – mudanças cíclicas em meio século. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2012.

MENDONÇA, Maria Luisa. Economia Política do Agronegócio. São Paulo: Editora Annablume, 2018.

PITTA, Fábio T.; MENDONÇA, Maria Luisa. A empresa Radar S/A e a especulação com terras no Brasil. São Paulo: Editora Outras Expressões, 2015. Disponível em: https://www.social.org.br/pub/revistas-portugues/188-a-empresa-radar-s-a-e-a-especulacao-com-terras-no-brasil. Acesso em: 01 out. 2025.

PITTA, Fábio T.; CERDAS, Gerardo; MENDONÇA, Maria Luisa. Imobiliárias agrícolas transnacionais e a especulação com terras na região do MATOPIBA. São Paulo: Editora Outras Expressões, 2017. Disponível em: https://www.social.org.br/pub/revistas-portugues/207-imobilia-rias-agri-colas-transnacionais-e-a-especulac-a-o-com-terras-na-regia-o-do-matopiba. Acesso em: 01 out. 2025.

REDE SOCIAL DE JUSTIÇA E DIREITOS HUMANOS. Aqui é meu lugar: a resistência das comunidades rurais na proteção dos territórios. Podcast. Disponível em: https://www.social.org.br/livros-2/37-podcasts/282-podcast-aqui-e-meu-lugar-a-resistencia-das-comunidades-rurais-na-protecao-dos-territorios. Acesso em: 01 out. 2025.

1 Disponíveis em www.social.org.br, acesso em: 01 out. 2025.

2 F. T. Pitta, M. L. Mendonça, A empresa Radar S/A e a especulação com terras no Brasil. Disponível em: https://www.social.org.br/pub/revistas-portugues/188-a-empresa-radar-s-a-e-a-especulacao-com-terras-no-brasil, acesso em: 1 out. 2025.

3 F. T. Pitta, G. Cerdas, e M. L. Mendonça, Imobiliárias agrícolas transnacionais e a especulação com terras na região do MATOPIBA. Disponível em https://www.social.org.br/pub/revistas-portugues/207-imobilia-rias-agri-colas-transnacionais-e-a-especulac-a-o-com-terras-na-regia-o-do-matopiba, acesso em: 01 out. 2025.

4 G. DELGADO, Do capital financeiro na agricultura à economia do agronegócio – mudanças cíclicas em meio século.

5 M. L. Mendonça, Economia Política do Agronegócio.

6 Podcast, Aqui é meu lugar: a resistência das comunidades rurais na proteção dos territórios, https://www.social.org.br/livros-2/37-podcasts/282-podcast-aqui-e-meu-lugar-a-resistencia-das-comunidades-rurais-na-protecao-dos-territorios.