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50 anos de presença, resistência e profecia: romper cercas, tecer teias

O V Congresso Nacional da CPT nos fez enxergar que só se rompe cercas tecendo teias e só se tece teias se as cercas foram rompidas.

por Cícera Gomes de Andrade

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) é uma entidade da igreja católica ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que atua junto aos povos da terra, das águas e das florestas no território brasileiro. A CPT surgiu em 1975 a partir de uma realidade de negação dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, especialmente na Amazônia e no Nordeste, regiões em que a centralidade da terra, do trabalho e da negação dos direitos humanos estavam em efervescência.

A CPT é presença ao apoiar as lutas, organizações e modos de vida dos povos e comunidades da terra, das águas e das florestas, oferecendo instrumentos para o fortalecimento do seu protagonismo. É profecia por denunciar as realidades injustas e anunciar as resistências dos povos e comunidades na construção da terra sem males. A resistência é a força dos povos e comunidades no enfrentamento às violências que sofrem. A CPT atua em defesa dos povos e comunidades impactadas pelo agronegócio, pela mineração e por projetos que rasgam o coração da “mãe terra” e causam destruição dos rios e da vida.

As comunidades e povos do campo são guardiões da natureza, da ancestralidade, da biodiversidade, dos animais, das fontes de águas e das sementes. A terra para os povos e comunidades é mais do que terra, é modo de ser e de estar no mundo. É condição primordial para sua existência e reprodução social como sujeito. No marco da celebração do V Congresso Nacional da CPT, os toques dos tambores vieram dos povos do campo, das mulheres, dos jovens, das diversidades da terra, das águas e das florestas para “Romper as cercas que nos privam de amor e de viver, e para tecermos as teias das resistências”1.

Romper cercas é a necessidade e a força contra a concentração fundiária, a exploração e a expropriação que atinge os povos indígenas. Os povos do campo rompem as cercas do monopólio da terra, das águas, dos ventos, do sol, dos minerais, das florestas, das matas, dos animais, das pessoas e da vida em sua totalidade. O conceito de romper cercas é baseado no conflito entre a “terra de trabalho e a terra de negócio”2 (Oliveira, 2002). A terra de trabalho produz alimentos, gera e sustenta vidas nas comunidades camponesas, nos territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos. A terra de negócio é utilizada para monocultivos de mercadorias, com uso de veneno, desmatamento e contaminação. As comunidades e povos do campo continuam a romper as cercas que nos privam de viver.

‘Tecer teias’ é o processo de resistência que acontece de forma coletiva, alimentado pela utopia, fé e esperança para conquistar e permanecer na terra. Esperança do ‘verbo esperançar’, de construir uma sociedade com justiça para os povos que plantam alimentos, protegem os rios e as florestas. Tecer teias surge a partir das diversas experiências dos povos e comunidades tradicionais que enfrentam violação de direitos socioambientais. São formas de organização, resistência e articulações para garantir a permanência em seus territórios com dignidade. As comunidades lutam por territórios livres e com autonomia. Essas conquistas têm permitido aos povos e comunidades se constituírem como sujeitos da sua história, contra a dominação do capital e compreendendo o significado sociopolítico da terra e dos territórios.

O V Congresso da CPT nos fez enxergar que só se rompe cercas tecendo teias e só se tece teias se as cercas foram rompidas. Segundo Lazzarin3 (2025), o congresso da CPT fez ecoar o canto camponês que mostrou a luz nas escuridões das conjunturas, apresentando a autonomia dos territórios físicos e espirituais dos povos camponeses: “E de profecias existenciais que, antes de ser luta, são busca da fidelidade à herança ancestral no jeito de se relacionar com a terra não como um “isto”, mas com um “tu” fraterno” (Lazzarin, 2025). Foi contagiante o espírito livre e alegre, mas também o grito de dor e revolta que acompanha quinhentos anos de genocídio de povos indígenas, de colonização, escravidão, grilagem e expropriação dos territórios.

Cícera Gomes de Andrade (Cecília) é mestra em Geografia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e graduada em Geografia pela Universidade Federal de Campina Grande. Faz parte da coordenação nacional da CPT.

Referências

GOMES, Cecília. “Romper Cercas, Tecer Teias”. Artigo publicado originalmente em: https://cptnacional.org.br/2025/07/14/romper-cerca-tecer-teias/. Acesso em: 12 set. 2025.

LAZZARIN, Flávio. “Algumas impressões. V Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra”. CPT 50 anos – Presença, Resistência e Profecia, Maranhão, 21 e 25 de julho de 2025. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/656311-v-congresso-nacional-da-cpt-algumas-impressoes-artigo-de-flavio-lazzarin#. Acesso em: 12 set. 2025.

OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. “A geografia agrária e as transformações territoriais recentes no campo brasileiro”. In: CARLOS, Ana Fani Alessandri (org.). Novos caminhos da Geografia. São Paulo: Contexto, 2002.

1 “Romper Cercas, Tecer Teias”. Artigo publicado originalmente em: https://cptnacional.org.br/2025/07/14/romper-cerca-tecer-teias/. Acesso em: 12 set. 2025.

2 A. U. de Oliveira, “A geografia agrária e as transformações territoriais recentes no campo brasileiro”, A. F. Alessandri Carlos (org.) Novos caminhos da Geografia.

3 Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/656311-v-congresso-nacional-da-cpt-algumas-impressoes-artigo-de-flavio-lazzarin#. Acesso em: 12 set. 2025.