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Pecuária: a grande vilã da crise climática brasileira

Diante das motivações econômicas, pode parecer utópico imaginar uma desaceleração na pecuária. Entretanto, os dados escancaram justamente a necessidade de frear o avanço da fronteira da criação de gado no país para que seja possível cumprirmos nossas metas climáticas.

por Julia Dolce e Tatiana Merlino

Em um ano marcado pela Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima realizada em solo nacional, era de se esperar que os principais responsáveis pela porção brasileira das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) tivessem sido provocados a mitigar seu impacto climático. Quinto maior emissor de GEE do mundo, o Brasil tem a maior parte de suas emissões relacionadas à atividade agropecuária. Dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima revelam que as mudanças de usos da terra foram responsáveis por 48% do total nacional de emissão de gás carbônico. A categoria diz respeito ao desmatamento dos biomas brasileiros, encabeçado principalmente pela atividade agropecuária. Em segundo lugar no ranking do SEEG está a produção agropecuária em si, responsável por 27% das emissões brutas. Dessa forma, o setor responde por aproximadamente 74% de toda a poluição climática brasileira.

A criação de gado é uma das protagonistas dessas emissões. Um relatório do Mapbiomas, que monitora as mudanças no território brasileiro, expôs que mais de 90% do desmatamento da Amazônia visou a abertura de pastagens entre 1985 e 2023. Além disso, o gado segue sendo utilizado como etapa inicial do processo de grilagem de terras no país. A atividade também lidera a emissão de outro GEE: o gás metano. “Por ser um animal ruminante, durante a digestão ele expele o metano via arroto, principalmente. Dentro do setor agropecuário, 66% das emissões de metano nacionais vêm da fermentação entérica do gado”, explica Renata Potenza, especialista em clima da organização não governamental Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora)1.

Para completar o quadro de impactos da cadeia da carne para a crise climática está o uso excessivo de água. Um estudo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calculou que são necessários, em média, 15 mil litros de água para se produzir um quilo de carne bovina. Considerando esses números, afastar a pecuária da crise climática parece, no mínimo, insólito. O setor parece seguir imune a implicações políticas. Dificilmente reportagens sobre a crise climática são ilustradas por fatias de picanha. Por trás dessa desvinculação estão os interesses do setor e do próprio Estado brasileiro, argumentando que a exportação de carne bovina representa uma importante commodity na balança comercial.

O Brasil é o segundo maior produtor de carne bovina do mundo, e o maior exportador de carne, sendo a China nosso principal parceiro comercial. As transnacionais JBS S.A e Marfrig, de origem brasileira, estão entre as maiores produtoras de alimentos à base de proteína do planeta. Para dar conta dessa produção, temos o segundo maior rebanho bovino mundial. No final de 2024, a população brasileira era de 205,2 milhões de pessoas, e 232,6 milhões de cabeças de gado. Enquanto o crescimento da população humana tem desacelerado, a população bovina segue em expansão. O ano de 2024 também trouxe um novo recorde para o setor: no 3º trimestre, pela primeira vez, o abate trimestral de bovinos chegou a 10,37 milhões. Diante dessas motivações econômicas, pode parecer utópico imaginar uma desaceleração para o setor. Entretanto, os dados escancaram justamente a necessidade de frear o avanço da fronteira da criação de gado no país para que seja possível cumprirmos nossas metas climáticas.

A ocupação do território pela pecuária

No Brasil, a criação de gado é majoritariamente extensiva. Pastagens em diferentes graus de degradação tomam cerca de 20% do território nacional. Quase um terço desse imenso rebanho está concentrado nos estados da região Norte. Mas nem sempre foi assim. Bois e vacas são uma espécie exótica em todo o território brasileiro. A carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei D. Manuel, descreve o “Mundo Novo” e os hábitos alimentares dos povos indígenas desse primeiro contato, destacando a ausência de gado. “Eles não lavram nem criam. Não há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado a viver do homem”.

O gado foi trazido para o Brasil ao longo dos séculos da colonização portuguesa. Mas por muito tempo ocupou um território consideravelmente limitado. Há cinquenta anos, por exemplo, a tradição da criação bovina no Brasil era concentrada no Sul do país. Em 1984, o Rio Grande do Sul liderava o rebanho brasileiro, com 13 milhões de bovinos. À época, os militares tentaram criar uma imagem moderna da atividade, destacando sua finalidade mercadológica e política – tanto para conquistar mercados de exportação quanto colonizar o próprio território brasileiro. A construção de rodovias que cortaram o Cerrado e a Amazônia, como a Transamazônica, foi importante para esse projeto. As rodovias serviram como infraestrutura para o avanço das fronteiras agropecuárias sobre esses biomas. Com elas, subiram colonos do Sul e do Sudeste do país, que apoiados pelo governo, também levaram a pecuária de corte ao Centro-Oeste e ao Norte.

Nos anos 1990, a exportação de carne brasileira disparou, no rastro de melhoras nos padrões sanitários. Com o aumento da produção, o consumo de carne bovina também passou de uma raridade nos pratos de boa parte dos brasileiros, para uma marca da nossa dieta. Em paralelo, em diferentes regiões do país, a alimentação passou a perder diversidade, tornando-se mais “monótona”. Estados amazônicos com consumo histórico de pescado, por exemplo, passaram a substituir o alimento pela carne bovina que chegava em seus territórios. Essa transição também esteve ancorada em um suposto paradigma científico, já superado, de que a “deficiência proteica” seria a principal causa da fome no mundo. O mito foi construído a partir de interesses econômicos de países do Norte Global que objetivavam escoar sua superprodução de proteína de origem animal, mas até hoje dá o tom nas discussões globais sobre o tema – e é refletido nos nossos pratos.

O consumo de carne bovina

Dados da mais recente Pesquisa de Orçamento Familiares (POF) do IBGE, de 2018, revelam que as despesas com carne bovina representam a maior parcela de gastos com alimentação da população brasileira, seguidas por despesas por carne de frango e pescados. Os gastos com carne bovina variam de R$ 21,14 mensais para as famílias mais pobres até R$ 93,91 para as mais ricas, uma média de R$ 40,84. Desde a pandemia de covid-19, a inflação sobre a carne bovina tem crescido, o que indica que os gastos com o alimento estejam significativamente maiores. Somente em 2020, por exemplo, o preço da carne registrou um aumento de 15,04%. Apesar da grande exportação do produto, o mercado doméstico lidera o consumo de carne bovina brasileira. Aproximadamente 70% da carne produzida fica no país. Em 2022, a média anual de consumo por brasileiro foi de 36,73 quilos.

Esses dados mostram que enfrentar o avanço da crise climática envolve, invariavelmente, pautar uma redução do consumo de carne vermelha entre brasileiros. Porém, considerar um debate de mudança de hábitos alimentares entre a nossa população é um tema delicado, considerando que, apenas em julho de 2025 o Brasil deixou o Mapa da Fome da ONU. O ativista Eduardo Santos – que criou a página Vegano Periférico com seu irmão Leonardo Santos – lembra que “não mexer no prato do povo” é praticamente uma palavra de ordem dos pensadores sociais brasileiros, ainda que as populações periféricas sejam as que “mais sofrem com as mudanças climáticas”. 

Dados de 2024 apresentam um contraponto para a questão. Um estudo conduzido pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, em parceria com o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que todas as faixas de renda no Brasil concentram grupos que consomem excesso de carne vermelha (bovina e suína). O estudo cruzou os dados da POF de 2018 com estimativas de um consumo de carne vermelha que atenda as necessidades nutricionais e, ainda assim, seja sustentável. Essas estimativas consideram um limite menos restritivo de consumo, definido pela bibliografia internacional: 70 gramas de carne, por pessoa, por dia. Tendo em conta esse limite, o estudo mostra que 34,29% da população mais pobre do país (com renda per capita até 476 reais) consomem carne em excesso, contra 44% da população mais rica. A conclusão aponta tanto para a necessidade de redução de consumo entre esses grupos de todas as classes sociais, quanto para que a maioria das pessoas nessas faixas de renda não ultrapassam esse limite. “A ideia seria mudar um padrão alimentar para quem consome em excesso, prevendo não exatamente deixar de comer, mas comer até esse limite e realocando o excesso de consumo para outras fontes de proteína”, explica o pesquisador Eduardo Nilson, um dos autores do estudo. 

Esses achados significam que a alimentação dos brasileiros possui uma baixa inadequação de proteína. Em outras palavras, praticamente não há déficit no consumo desse nutriente, já que, além da carne, nossa cultura alimentar é baseada em vegetais de alto índice proteico, como o feijão. Ainda assim, entre os brasileiros, existem deficiências graves de outros nutrientes, como vitaminas, minerais, fibras e carotenoides. O dado expõe a necessidade de uma alimentação mais diversa, in natura e minimamente processada, com predominância de origem vegetal, como indica o Guia Alimentar para a População Brasileira, documento do Ministério da Saúde. Para se alcançar uma alimentação menos monótona e mais nutritiva, o consumo moderado da carne vermelha é recomendado. A indicação considera também o fato de que se gastando menos com carne, o brasileiro poderia comprar uma variedade maior de alimentos. “A redução do consumo de carne está misturada com a discussão de ampliação da diversidade alimentar, é por aí que a gente tem que discutir”, explica Juliana Tângari, advogada e diretora do Instituto Comida do Amanhã. Se a redução do consumo de carne vermelha é um imperativo para mitigar os impactos da pecuária bovina, ainda segue sendo um tema polêmico. Ao mesmo tempo, outras medidas urgentes deveriam ser tomadas para enfrentar os danos climáticos da cadeia de pecuária de corte.

O que deveria ser feito e o que está sendo feito

Considerando a responsabilidade da pecuária nas emissões brasileiras, políticas públicas para a redução dos GEE focadas no setor deveriam estar sendo implementadas no país. Há algumas possibilidades de políticas sendo propostas. Contudo, muitas não são executadas, aponta Márcio Astrini, do Observatório do Clima. “Hoje, são pouquíssimos os agricultores ou os empresários que têm acesso, por exemplo, a um Plano Safra ou a tecnologias desenvolvidas por órgãos públicos, como a Embrapa. Precisamos democratizar o acesso à tecnologia, como desenvolvimento de pesquisas e aplicação de extensão rural – serviço de educação continuada para o meio rural”, diz. 

Uma das propostas é o abate precoce do rebanho. No Brasil, a média de vida de um bovino é de 36 meses. No entanto, estudos afirmam que é possível fazer o abate mais cedo. “Obviamente, considerando todas as questões sanitárias e de bem-estar, ao se reduzir esse tempo para 30 meses, há um ganho enorme de redução de emissões de metano. Quanto antes [o gado] for abatido, menos metano vai emitir. É uma estratégia que a gente vem fomentando para que seja uma política nacional ou que pelo menos seja incorporada no plano ABC+”, diz, Renata Potenza, do Imaflora, referindo-se ao Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária 2020-2030. 

Outra medida de redução das emissões é a recuperação de pastos degradados – áreas onde o solo perdeu a capacidade de produzir plantas para alimentar o gado. A pecuária regenerativa, conjunto de práticas e processos agropecuários que buscam recuperar os solos e restaurar sua biodiversidade, é mais uma das iniciativas capazes de diminuir as emissões. O termo pecuária regenerativa abrange um conjunto de práticas inter-relacionadas na criação de animais, sobretudo bovinos, com o objetivo de regenerar o solo e a biodiversidade de áreas degradadas.

O rastreamento de rebanho é outra das estratégias que podem contribuir para a redução das emissões, evitando a comercialização de gado criado em áreas desmatadas. A rastreabilidade bovina é um método para acompanhar a criação de um animal. Ela pode ser feita a partir de certo momento de sua vida (o primeiro transporte, por exemplo) ou em todas as etapas desde o nascimento até o abatedouro. A marcação a ferro dos bois e vacas é uma forma antiga de rastreabilidade. As formas atuais permitem recolher informações sobre saúde animal, vacinação, tipo de alimentação, dados geográficos e ambientais, transportes para diferentes fazendas e frigoríficos por meio de chips de identificação, QR Codes ou etiquetas, colocados em bottons, brincos ou no rúmen (compartimento do estômago) dos animais. Essas informações são transmitidas e registradas em bancos de dados privados ou públicos. Em dezembro de 2024, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) lançou o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com o objetivo de implantar um sistema de rastreabilidade individual de todos os animais desde o nascimento até o abatedouro.

Redução de rebanho e consumo

Dada a urgência em combater o aquecimento global, todas essas iniciativas de mitigação das emissões não são suficientes se não forem acompanhadas de um plano para a redução do consumo de carne bovina e do rebanho brasileiro. Assim como não há uma campanha nacional para discutir e implementar uma redução de consumo, tampouco há uma política nacional de redução de rebanho. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram que a produção deve chegar a 10,19 milhões de toneladas em 2025, um aumento de 7,1% em relação a 2023. A empresa pública estima ainda que a disponibilidade interna da carne no país é de 21,12 milhões de toneladas. “Depende de nós diminuir radicalmente a nossa ingestão de carne bovina”, afirma Luiz Marques, professor livre-docente aposentado e colaborador do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH/Unicamp). Ele aponta para a necessidade de uma profunda mudança no sistema alimentar do país. 

“O Brasil é o maior exportador de soja, sobretudo para a China. E a soja é praticamente um alimento destinado à ração animal. O nosso sistema alimentar é baseado em proteínas animais”. O professor defende que o sistema alimentar seja baseado em nutrientes vegetais e autossuficiente, ou seja, que o produtor esteja muito perto do consumidor. Ele cita o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como modelo agrícola do país. “É o melhor. O MST tem um plano de produção agrícola próxima do consumidor, sem uso de agrotóxicos, sem monocultura e com geração de renda de trabalhadores”, pontua.  

Os planos do governo federal, porém, parecem apontar para o lado oposto. As projeções do governo indicam que, até 2035, há uma tendência de aumento de rebanho, consumo e exportações. “Nas nossas projeções, [a agropecuária] é o único setor, inclusive, que aumenta as emissões no Brasil. Principalmente por conta do aumento do rebanho bovino”, diz Márcio Astrini, do Observatório do Clima. Desembocamos em uma encruzilhada marcada por um país cada vez mais refém da pecuária: para que seja cogitada a diminuição ou estabilização do rebanho no Brasil seria preciso, em primeiro lugar, inaugurar o debate de políticas públicas para a redução do consumo de carne bovina. Essa discussão, entretanto, envolve enfrentar os interesses econômicos do setor, o que exige uma coragem difícil de ser assumida em um projeto político. Ainda assim, essa é a única forma do Brasil encarar seu papel na crise climática.


Julia Dolce é repórter e fotojornalista para o site de O Joio e o Trigo, focada na cobertura de violações de direitos, conflitos socioambientais, agronegócio e sistemas alimentares. É mestre em Ciências Sociais, Desenvolvimento e Agricultura pelo CPDA-UFRRJ.
Tatiana Merlino é diretora de O Joio e O Trigo, especialista na cobertura de temas relacionados aos direitos humanos, sociais e socioambientais.

1 As entrevistas mencionadas no texto foram realizadas para reportagens de O Joio e O Trigo.