O mercado de trabalho brasileiro mantém ritmo constante de melhora, sem grandes variações em 2025. A taxa de participação – proporção de pessoas de 14 anos ou mais de idade na força de trabalho – variou positivamente 0,3 pontos percentuais no segundo trimestre deste ano na comparação com o mesmo período de 2024. A participação das pessoas no mercado de trabalho havia diminuído ao longo de 2023, mas voltou a crescer em 2024 e tem se mantido, ainda que em menor intensidade, em 2025.
A taxa de desocupação (comumente referida como “taxa de desemprego”) atingiu no segundo trimestre de 2025 o menor nível desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. O indicador caiu para 5,8%, representando uma redução expressiva de mais de um ponto percentual em relação ao mesmo período de 2024, quando estava em 6,9%.
Esse resultado ocorreu com aumento da taxa de participação, evidenciando o crescimento da população ocupada. O número de ocupados, no segundo trimestre de 2025, chegou ao número recorde de 102,3 milhões de pessoas. Desse total, 39 milhões estavam empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado, aumento de 3,7% ou 1,4 milhão de pessoas em relação ao mesmo período de 2024. O número de trabalhadores por conta própria, por sua vez, aumentou em 3,1% ou 767 mil pessoas. Ainda assim, no segundo trimestre de 2025, havia cerca de 6,3 milhões de pessoas desocupadas.
A análise das taxas de participação e desocupação ao longo dos segundos trimestres de cada ano revela diferentes configurações do mercado de trabalho brasileiro. Em anos como 2017 e 2018, observam-se altas taxas de participação acompanhadas de elevados índices de desocupação, evidenciando a dificuldade da economia em absorver a mão de obra disponível.
Por outro lado, o cenário de baixa participação combinada com alta desocupação, como o registrado em 2020, reflete o impacto da pandemia de covid-19, quando muitos trabalhadores desistiram de procurar emprego diante da escassez de oportunidades, reduzindo a taxa de participação.
Em 2024, o país vivenciou uma configuração de baixa participação e baixa desocupação, o que pode indicar uma recuperação parcial, mas ainda limitada em termos de inclusão produtiva.
O cenário mais favorável, no entanto, é aquele em que há alta participação e baixa desocupação – sinal de uma economia mais robusta, capaz de atrair trabalhadores e gerar ocupações em escala. É exatamente o que se observa em 2025: com a taxa de desocupação em seu menor nível histórico e uma participação acima da média, o mercado de trabalho demonstra maior dinamismo e capacidade de inclusão.

Fonte: IBGE. Pnad Contínua. Elaboração: DIEESE.
A taxa de desocupação no segundo trimestre de 2025 foi bastante heterogênea entre os diferentes grupos da população. Enquanto a média nacional se situou em um patamar baixo, os jovens de 14 a 29 anos tinham taxa bem superior à média, principalmente as mulheres negras (12,7%) e não negras (10,5%), além dos homens negros (9,3%) e não negros (8,3%). Percebe-se uma espécie de “hierarquia da desocupação”, em que os jovens enfrentam os maiores índices, assim como as mulheres em relação aos homens, e os negros em relação aos não negros.

Fonte: IBGE. Pnad Contínua. Elaboração: DIEESE.
Esse resultado reflete uma melhora consistente no mercado de trabalho, embora ainda coexistam desafios relacionados às desigualdades de idade, gênero e raça, indicando barreiras estruturais no acesso ao mercado de trabalho e à qualidade e à equidade das ocupações disponíveis.
O rendimento médio habitual dos ocupados continua crescendo de forma consistente. Desde meados de 2023, o rendimento em termos reais tem crescido de forma quase linear.

Fonte: IBGE. PNAD Contínua. Elaboração: DIEESE
Os dados apontam para um crescimento generalizado no rendimento médio do trabalho durante os dois primeiros anos do governo Lula 3, com uma variação média de 7,5%. Esse avanço foi relativamente uniforme entre as diferentes faixas de rendimento, indicando que o crescimento não se concentrou exclusivamente entre os mais ricos. No entanto, ao observar os valores em termos absolutos, as desigualdades se tornam evidentes: os trabalhadores com menores rendimentos tiveram um ganho real de apenas 76 reais mensais, enquanto os 10% mais bem remunerados registraram um acréscimo de 901 reais. Isso demonstra que, mesmo com avanços proporcionais, o impacto financeiro do crescimento é profundamente desigual.
Em termos absolutos os ganhos ainda são baixos, especialmente entre os mais pobres. Para metade dos ocupados o aumento foi de no máximo 27 reais. Com isso, 31% dos ocupados ainda ganhavam até um salário mínimo no 4º trimestre de 2024.
Como observado também na análise do Índice da Condição do Trabalho (ICT-DIEESE), a desigualdade dos rendimentos tem se mantido, fazendo com que os ganhos do trabalho estejam sendo distribuídos de forma assimétrica.
O ICT-DIEESE, que sintetiza a qualidade do trabalho no Brasil a partir de três dimensões – inserção ocupacional, desocupação e rendimento – atingiu 0,71 no primeiro trimestre de 2025. Esse é o maior valor registrado para primeiros trimestres desde o início da série histórica em 2012.
Principais avanços:
- Inserção ocupacional: crescimento de 0,49 (2024) para 0,56, refletindo maior formalização e cobertura previdenciária.
- Desocupação: melhora de 0,73 para 0,81, com queda significativa no número de desempregados e desalentados.
- Rendimento: avanço de 0,64 para 0,76, impulsionado pelo aumento do salário médio real.
Na média de quatro trimestres, o ICT-DIEESE e suas dimensões continuam em elevação, mas sem atingir as máximas observadas no final de 2014 e 2015.
Apesar dos avanços, a distribuição dos rendimentos ainda não acompanha o ritmo da recuperação, mantendo desigualdades persistentes entre regiões, gêneros e setores produtivos.
Os dados de 2025 confirmam que o mercado de trabalho brasileiro vive um ciclo de recuperação importante, com geração expressiva de empregos, aumento da formalização e elevação da massa salarial. A taxa de desocupação atingiu seu menor nível histórico, e o número de ocupados alcançou patamares recordes, sinalizando uma economia mais dinâmica e capaz de absorver a força de trabalho disponível.
No entanto, esse avanço ainda convive com desigualdades profundas e persistentes. As disparidades de gênero, raça e região continuam a moldar o acesso, a permanência e a remuneração dos trabalhadores. Jovens, mulheres e pessoas negras enfrentam taxas de desocupação significativamente mais altas, e os rendimentos, embora em crescimento, permanecem baixos para grande parte da população – com milhões de brasileiros vivendo com até um salário mínimo.
Diante desse cenário, é preciso reconhecer que a recuperação não pode ser o ponto de chegada, mas sim o ponto de partida para uma transformação mais profunda. A consolidação dos avanços exige políticas públicas estruturantes, que enfrentem as desigualdades com coragem e compromisso. É hora de aprofundar os ganhos, garantindo que o crescimento econômico se traduza em trabalho digno, renda justa e oportunidades reais para todos os brasileiros.
O desafio está posto: transformar progresso em igualdade. E isso só será possível com uma agenda que coloque o trabalho no centro do desenvolvimento – com inclusão, proteção e justiça social.
Adriana Marcolino é diretora técnica do DIEESE. Patrícia Pelatieri é diretora técnica adjunta do DIEESE.
Referências
DIEESE. Análise do Índice da Condição do Trabalho – ICT. Disponível em: https://www.dieese.org.br/analiseict/ict.html. Acesso em: 08 out. 2025.
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD contínua. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/2511-np-pnad-continua/30980-pnadc-divulgacao-pnadc4.html. Acesso em: 08 out. 2025.






