O século XXI trazia esperanças de um mundo livre de opressão, pobreza, desigualdade, crise climática e outros males que afligem a maioria das populações. As metas globais de desenvolvimento do milênio, firmadas em 2000 como compromisso por 191 Estados-membros da Organização das Nações Unidas, alimentavam aspirações de um possível horizonte de paz e justiça. A comunidade internacional saudou a iniciativa, após um período traumático de conflitos bélicos de diferentes matizes – guerras civis, disputas de fronteiras, insurgências – em Kosovo, Cachemira, Chechênia, Congo, Serra Leoa, Paquistão, Afeganistão, entre outros.
A ideia de desenvolvimento expressa no documento norteador da ONU, principal referência do multilateralismo, se fundamentava na concepção de estratégias estabelecidas pelo Banco Mundial (BM). Formalmente um órgão das Nações Unidas, o BM exerce liderança junto às entidades da chamada cooperação internacional e se apresenta em seu site como “a maior fonte de assistência ao desenvolvimento das nações”. Porém, suas intervenções com propósitos ditos humanitários (“salvar os pobres”)complementam as estratégias bélicas dos Estados Unidos, nação que mais influencia suas diretrizes para manter hegemonia global.

Aboudia Abdoulaye Diarrassouba (Costa do Marfim), Daloa 29 , 2011.
Desde a criação em 1944, a trajetória do Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) revela que suas políticas ditas desenvolvimentistas são seguidas por governos e organismos multilaterais como os bancos de desenvolvimento na América Latina, África e Ásia (criados à imagem e semelhança do BIRD). Estas políticas estão relacionadas às experiências de guerra dos Estados Unidos. É o que revelam as três grandes inflexões na concepção de desenvolvimento do que hoje constitui o grupo Banco Mundial (composto por cinco instituições) e que repercutem sobre as nações, por exemplo, a derrota no Vietnã, o fim da Guerra Fria e chamada “guerra ao terror”.
Nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, a ideologia desenvolvimentista parecia ser uma alternativa ao processo de descolonização como meio de manter os vínculos entre as metrópoles e as nações recém-libertadas. Sua absorção pelo país colonizado ajuda a transformar o nacionalismo em um modelo de organização política para supostamente ingressar no mundo moderno. O nacional-desenvolvimentismo constitui a resposta forçosa ao dilema do subdesenvolvimento: o fato de não ter e a consciência de sua ausência. Acenando com expectativa de igualdade para nações que integrassem o sistema capitalista global, o apoio das entidades multilaterais pressupõe, por um lado, a crença na superioridade da civilização ocidental e, por outro, a transferência de capitais e tecnologias das sociedades modernas para as tradicionais. Inicialmente, prevalece o padrão liberal de crescimento econômico, difundido pelos centros hegemônicos de poder.
A derrota dos Estados Unidos na prolongada guerra do Vietnã (1955-1975) marca a primeira mudança nas orientações do Banco Mundial. O suposto “combate à pobreza” serve de contraponto a revoluções populares, como na China (1949) e em Cuba (1959). A ideologia de “defesa do mundo livre”, formado pela Europa Ocidental e pelos EUA, pretende integrar as nações egressas de lutas anticoloniais na África e Ásia. A fórmula doutrinária segurança-desenvolvimento sintetiza incursões do Banco Mundial, presidido por um estrategista do Pentágono, e das ditaduras latino-americanas, legitimadas pela Casa Branca. A prioridade do BM eram programas voltados para o meio rural e para as periferias urbanas, segmentos potencialmente revolucionários. O discurso do “desenvolvimento”, concebido como aplicação de tecnologias produtivas e de gestão, aumentaria a renda e pacificaria as lutas sociais, particularmente no campo.
O fim da Guerra Fria e a fragmentação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1991) consolidam o poderio unilateral dos Estados Unidos. As novas tendências de sua política externa repercutem nas diretrizes do Banco Mundial, que abraça o neoliberalismo. Com base na ideologia do mercado para solução dos problemas nacionais, ganham vulto procedimentos dirigidos a minimizar a participação do Estado na condução do desenvolvimento. Elaborado conforme preceitos do Tesouro dos EUA e das instituições financeiras internacionais, o Consenso de Washington promove programas de ajuste estrutural e políticas compensatórias para os pobres. Os conflitos tendem a ser mais complexos e multifacetados, envolvendo questões étnicas, raciais, religiosas e econômicas, como na região dos Balcãs, do Cáucaso e do Oriente Médio, sendo o mais conhecido a Guerra do Golfo.
A terceira inflexão no pensamento do Banco Mundial firma-se na sequência do ataque ao centro hegemônico de poder, o World Trade Center. Este fato torna mais evidente a vinculação entre suposto “desenvolvimento inclusivo e sustentável”, entendido como administração de bens dirigido pelo setor privado e amparado por políticas públicas, e a estratégia da chamada “guerra contra o terror” para defender os interesses dos Estados Unidos como acesso a mercados, fontes de energia e recursos estratégicos. Prevalece no discurso desenvolvimentista do Banco Mundial a perspectiva neoconservadora que equipara o combate à pobreza global ao terrorismo.
Estadossofrem intervenção militar dos EUA sob alegação de ter regimes autoritários e posse de armas de destruição em massa. Sem que as atrocidades cometidas sejam investigadas, uma missão de assistência internacional coordenada pelo Banco Mundial, e da qual participam dirigentes eleitos em plena ocupação estrangeira, se instala no país arrasado para iniciar a reconstrução pós-conflito, como no Afeganistão, Iraque, Líbia e Haiti. Sob a roupagem de apoio a projetos de desenvolvimento com suas vãs promessas de uma vida melhor, o Banco Mundial incentiva a apropriação privada de riquezas naturais de propriedade comunal ou pública (florestas, rios, terras, minerais), causando maior intensidade de fluxos migratórios para áreas centrais do capitalismo, onde milhões de pessoas são discriminadas como “ilegais” em sua busca por subsistência.

Hussein Mirghani (Sudão), Sem título, 2019.
Outra estratégia do Banco Mundial para influenciar formadores de opinião nas sociedades latino-americanas foi a publicação da série Desarrollo para todos. A publicação traz textos curtos e didáticos sobre temas-chave da agenda multilateral, que são distribuídos como encartes nos principais periódicos de países da América Latina, sobretudo Colômbia e Argentina. O caderno Globalización y pobreza reforça o que a instituição denomina “campos de combate à pobreza”: comércio mundial, investimento estrangeiro, ajuda externa, migração internacional e bens públicos globais (paz, estabilidade, ciência e tecnologia). Seu controle seria imprescindível à segurança internacional e, portanto, exigiria normas rígidas e gestão dos organismos multilaterais.
O Banco Mundial tem sido apontado por estudiosos como instrumento político a serviço dos interesses imperialistas, conferindo-lhe uma legitimidade que a força militar, por si, não é capaz de assegurar. Com apoio de seus aliados, nomeadamente Israel, União Europeia (UE) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), os Estados Unidos patrocinaram o maior número de guerras no século XX e no primeiro quartil do século XXI, causando a morte e a diáspora de milhões de pessoas. Suas intervenções bélicas incluem invasão de territórios, bombardeio de cidades e de estruturas sociais, financiamento de golpes de estado e manutenção de bases militares. A lista de nações afetadas é enorme: Granada, Cuba, Coreia, Vietnã, Panamá, República Dominicana, Haiti, Filipinas, Nicarágua, Iraque, Líbia, Líbano, Afeganistão, Timor Leste e muitas outras.
Como beneficiário do acirramento das tensões na América Latina, região com uma das maiores biodiversidades do planeta e vasto potencial energético, os EUA se opõem a iniciativas regionais que ampliem processos de integração continental. Na disputa pelo domínio das riquezas naturais, o continente pode se converter em um campo de batalha e o Banco Mundial continua imprescindível à legitimação dos interesses imperialistas, de suas empresas e de seus aliados. Nesse sentido, desperta curiosidade uma notícia publicada em julho de 2025: a indicação (ainda não formalizada) de uma brasileira para a vice-presidência do Banco Mundial na América Latina e Caribe. O cargo inclui a administração de um portfólio de 32 bilhões de dólares em projetos, dos quais 14 bilhões de dólares seriam destinados ao Brasil. A economista que esteve à frente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no período de 2019-2021 ocupa a função de gerente no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e é casada com o atual subsecretário para Políticas de Defesa do Pentágono, expoente do movimento “Faça a América Grande de Novo”. Seus laços pessoais e políticos com a extrema direita no Brasil e nos EUA representam mais uma frente de pressão contra governos não alinhados à potência bélica.

Htein Lin (Mianmar), Alto-falante, 2021.
A segunda notícia é alvissareira: o encontro em Chiapas, México, em julho de 2025, organizado pelo Tejido Global de Alternativas, projeto que congrega movimentos sociais e iniciativas de resistência. Durante três dias, 250 pessoas – integrantes de 60 comunidades, organizações e redes – reuniram-se na localidade de Ahlan Mu’c’ul Ha’, município de Chilón. Além de explicar os impactos dos projetos do suposto “desenvolvimento” extrativista, sob uma lógica neocolonial, capitalista e patriarcal, os participantes compartilharam experiências organizacionais e comunitárias de luta e defesa da vida e do território. Em contraponto aos projetos de morte, dedicam-se a buscar coletivamente alternativas a partir de cada comunidade.
Guerra e desenvolvimento se complementam embora geralmente se associe desenvolvimento à paz e ao progresso, enquanto a guerra levaria ao atraso e à destruição. No mundo contemporâneo, a guerra serve para manter a hegemonia de uma nação e os privilégios de uma minoria de indivíduos. As despesas militares disparam nos Estados Unidos, seguido da China, Rússia, Alemanha e Índia. O recorde histórico de 2,71 trilhões de dólares, segundo dados de 2024 do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo(SIPRI, em inglês), leva a crer que vivemos a era de ouro para os especuladores que lucram com a guerra. A alta de 9,4% representa o maior aumento anual desde o fim da guerra fria. Este aumento segue o número de famintos, estimado em 2023 pela ONU em 9,8% da população global, totalizando 733 milhões de pessoas. Os dois fatos vistos em conjunto sinalizam a expansão dos conflitos armados em suas múltiplas formas, com consequências trágicas como o aumento da desigualdade econômica mundial.
Na disputa entre o imperialismo e a resistência popular, vale lembrar o legado de Antonio Gramsci, que experimentou as garras do fascismo, e de nossos compatriotas latino-americanos, como José Carlos Mariátegui, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra, Theotônio dos Santos e tantos outros que contribuíram com a teoria da dependência como análise crítica do sistema capitalista e da dinâmica de exploração/subordinação entre centro e periferia na perspectiva da emancipação social.
Mônica Dias Martins é coordenadora do Observatório das Nacionalidades da Universidade Estadual do Ceará (UECE), editora da revista Tensões Mundiais e Conselheira da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.






