Depois de um momento tenso em que dois tanques de guerra do exército israelense interceptaram um ônibus com um grupo de ativistas internacionais voltando do norte de West Bank (Cisjordânia), duas amigas estão sentadas lado a lado em silêncio. Voltam de uma visita à região de Toulkaren, brutalmente atacada na Operação Iron Wall nos últimos meses. Depois de algum tempo olhando a paisagem fragmentada por colônias, muros, estrelas de Davi grafitadas na estrada, bandeiras israelenses e outros símbolos de dominação espalhados pelo cenário ao redor delas, uma pergunta à outra:
– Você acha que tudo isso vai acabar um dia? Quero dizer, a colonização pode acabar em breve?
A outra, que vive lá há algum tempo, responde:
– De acordo com a ciência, tudo aponta para uma piora significativa. Se levarmos em conta todos os orçamentos aprovados, as novas leis que estão passando, todas as políticas em curso e o nível de aprovação da população israelense, só podemos vislumbrar um cenário cada vez pior. Interromper a colonização está nas mãos de governos de pouquíssimos países que lucram com isso. E é precisamente por essa razão que eu acho que há muito pouco que se possa fazer do lado de fora. Eu decidi estar aqui e passar esse pedaço da minha vida estando com essas pessoas. O que eu sinto que posso fazer agora não é nada mais senão estar com os palestinos nesse momento tão crítico.
Em meio ao genocídio palestino veiculado ao mundo em live-streaming, é frequente escutarmos relatos de desalento daqueles que testemunham a barbárie, tomados pelo sentimento de impotência. Genocídios, catástrofes ambientais, devastações econômicas, o cenário parece apocalíptico. A perda de entes queridos, da própria terra e mesmo do futuro é o horizonte comum dos povos do Sul Global. Como pensar em políticas de solidariedade em meio à destruição? Como evitar a posição de espectador ou mesmo consumidor passivo da barbárie para pensar em modos de agenciamento coletivos e relacionais de solidariedade e luta política?
A psiquiatra palestina Samah Jabr é conhecida por sua profunda contribuição teórica no campo da saúde mental e na compreensão dos efeitos psicossociais da colonização sionista na Palestina. Segundo ela, solidariedade opera como um remédio diante do adoecimento produzido pela dominação. Frente a uma história de muitas décadas de colonização e opressão, que produz sistematicamente fragmentação e dispersão da identidade coletiva e individual de palestinos, a solidariedade e a defesa dos direitos humanos sustentam uma posição terapêutica diante de um trauma coletivo, na opinião de Samah Jabr.
Em 1980, a psiquiatria ocidental descreveu o diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) a partir das experiências dos soldados estadunidenses retornados da Guerra do Vietnã. Esse diagnóstico descrito na terceira edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-III), produzido pela Associação Americana de Psiquiatria (APA), estabeleceu a primeira sintomatologia daquilo que passou a ser considerado um diagnóstico psiquiátrico fora do comum: trata-se de manifestações normais diante de um evento anormal. Uma nova era do traumatismo se iniciava, pois a etiologia da patologia passou a ser o próprio acontecimento. O conjunto dos sintomas do transtorno de estresse pós-traumático é caracterizado sobretudo por lembranças invasoras que fazem reviver o acontecimento, tais como pesadelos, sonhos diurnos ou flashbacks; inibição significativa com o mundo externo ou situações que se refiram ao evento; assim como sintomas de hipervigilância. Nos manuais seguintes, o diagnóstico se complexifica e essa compreensão sobre o traumático é largamente difundida. A proliferação da categoria de trauma nos últimos quarenta anos fez com que essa denominação passasse não só a compor o léxico do senso comum saindo do campo estritamente médico, como também fundou uma nova linguagem sobre o acontecimento (Gebrim, 2020).
Podemos nos perguntar sobre algumas consequências dessa nova concepção sobre o trauma instituído pela psiquiatria. Se, por um lado, a categorização psiquiátrica do traumático produziu reconhecimento do sofrimento de pessoas que vivenciaram situações extremas e que anteriormente poderiam ficar à margem de qualquer cuidado; por outro, algo da possibilidade de contar e significar a própria história – ou experiência – pelos sujeitos parece ter sido apagada. Este fenômeno revela duplamente aquilo que uma categorização pode fazer aparecer e suprimir em um só movimento. Para Samah Jabr, o diagnóstico de TEPT não é capaz de abarcar a realidade palestina e nem diagnosticar o sofrimento psíquico do sujeito palestino pela seguinte razão: o trauma na Palestina é colonial, contínuo, coletivo, cumulativo e intergeracional e reverbera em todos os domínios da vida palestina. Vejamos um exemplo citado por ela:
A antiga e multicultural capital de Jerusalém foi transformada em uma cidade judaica; isso, somado à imposição de currículos israelenses às crianças palestinas em idade escolar, à fragmentação das famílias, aos postos de controle, à restrição de movimento humano imposta pelos documentos de identidade e ao apagamento da cultura, da história e do idioma palestinos, não pode ser medido por uma lista de verificação de TEPT. Demolir casas palestinas, queimar suas oliveiras, impor nudez aos palestinos, forçá-los a beijar a bandeira israelense ou a dançar o hino nacional israelense em troca do atendimento de suas necessidades básicas, não são considerados eventos traumáticos de acordo com os manuais de psiquiatria. (Jabr, 2024, p. 175)
Essas são cenas cotidianas e históricas de um povo vivendo sob apartheid e colonização. Na realidade palestina, não existe o momento posterior ao trauma, isto é, o pós-traumático descrito pelo diagnóstico de TEPT, pois toda a questão da temporalidade é colocada em jogo. Por isso o trauma é condição permanente, contínua e cumulativa. Diagnósticos psiquiátricos ocidentais e práticas humanitárias inscritas nesse mesmo paradigma tendem a reproduzir lógicas coloniais de dominação e alienação. Ainda segundo Samah Jabr, a definição psiquiátrica ocidental não abrange as experiências cotidianas dos palestinos tais como humilhação, objetificação, desamparo forçado, ambiente hostil e exposição diária ao estresse colonial. Nesse contexto, não há o momento temporal da segurança vivida após o acontecimento traumático, pois trata-se de uma condição perene.
A diagnóstica interpretativa ocidental sobre os povos subalternizados reproduz a dimensão colonial de dominação ao invisibilizar tanto a produção de saber local como as práticas terapêuticas empregadas pelas próprias comunidades. A despolitização do fenômeno social está na base de uma compreensão epistemológica e técnica de captura e dominação. Por isso, o desafio de psiquiatras, psicólogos e profissionais de saúde mental palestinos é o de sustentar os modos de produção dos próprios palestinos sobre seu sofrimento, eles mesmos, para não mais serem descritos, catalogados e constrangidos a uma lógica externa e opositora. Aqui, mais uma passagem ilustrada por Samah Jabr:
Os idosos na Palestina se lembram, com ironia, das doações de roupas de caridade que receberam quando se tornaram refugiados em 1948: ocidentais bem-intencionados enviaram gravatas, calças curtas e boinas para vestir a população que anteriormente usava trajes tradicionais palestinos. As novas vestimentas ocidentais apareceram subitamente nos corpos da população local, com resultados hilários. O mesmo acontece com a experiência psicológica palestina quando é forçada a entrar em categorias ocidentais, como o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) – o transtorno psiquiátrico mais comumente atribuído aos palestinos. (Jabr, 2024, p. 55)
A compreensão do sofrimento psíquico enquanto diagnóstico de TEPT reverbera no apagamento da dimensão política da experiência sistemática de violações infligidas na realidade palestina. Ao diagnosticar o sofrimento da população palestina com um transtorno psiquiátrico, apagam-se as possibilidades de nomeação das estruturas coloniais e de apartheid da dominação sionista produtoras de mal-estar. No alastramento dessa categoria e na patologização da experiência é a dimensão política do sofrimento que parece ter sido extorquida nesse mesmo movimento. Nesse sentido, Samah Jabr desenvolve seu pensamento propondo a necessidade central de que os palestinos possam escrever e produzir sua própria narrativa. É um movimento de reapropriação da própria história, de politização do sofrimento psíquico e da transformação da posição de vítimas passivas para protagonistas de uma luta política anticolonial.
Enquanto a colonização sionista na Palestina opera através da fragmentação permanentemente da terra, da identidade, da coletividade e da resistência; trata-se de pensar nas modalidades terapêuticas de reestabelecer unidade, vínculos coletivos e confiança através da luta política. Favorecer as modalidades de narrativas da própria história também nos faz pensar na função da solidariedade e nas possibilidades de que essas narrativas possam ser escutadas, ecoadas e acompanhadas em múltiplos lugares. A solidariedade enquanto ação política promove modalidades distintas de estar com.
Assim como na vinheta do início deste texto, há os que podem efetivamente estar presentes em território palestino lutando diariamente contra a opressão sionista junto aos palestinos. Estes podem noticiar e denunciar as violações. Colocam-se fisicamente como barreira diante das violências coloniais, juntam-se corpo a corpo na luta por liberdade. Porém, há os que de seus países estrangeiros provem solidariedade favorecendo a amplificação das narrativas autorais da resistência palestina. São os que fazem ecoar vozes, textos, testemunhos, reflexões e ações que dão protagonismo para a construção da luta palestina por libertação. Há também, como temos visto, os que se arriscam nos mares em flotilhas humanitárias para furar o cerco imposto por Israel – e que mesmo sabendo das chances mínimas de alcançarem seu destino final de atracarem em Gaza, promovem um gesto de solidariedade que desafia uma institucionalidade arbitrária da violência necropolítica do colonialismo sionista. Para Samah Jabr, ações internacionais de solidariedade dos mais diversos tipos promovem esperança e devolvem o sentido de coletividade em um tecido social tão fragmentado pela colonização. Por isso a solidariedade é concebida como antídoto poderoso ao adoecimento colonial que promove isolamento, desamparo e falta de perspectiva.
A intelectual libanesa Lamia Moghnieh propõe uma noção interessante de solidariedade ao discutir as formas de ação e pertencimento afetivo em um mundo à beira do colapso. Trata-se daquilo que ela chama de empatia apocalítica, isto é, a radicalidade de um afeto direcionado para a ação política de reconstrução, sobrevivência e recuperação (Moghnieh, 2021) em um mundo permeado por catástrofes. Poder fazer além de apenas sofrer. Isto é, para além de um lugar estanque de produção de vítima e dor permanente, o passado torna-se um lugar de ensinamento, de conhecimento comunitário e de recursos a serem compartilhados na construção de novos horizontes. O desafio da solidariedade ou da empatia apocalítica é também de comprometer-se com os modos de transformação e reconstrução diante do desastre, para além de apenas lidar com as consequências dolorosas dos eventos.
Sumud é a palavra em árabe de difícil tradução em português utilizada pelos palestinos desde a colonização pelo mandato britânico. Essa palavra descreve um modo particular de resistência diante da colonização, que expressa tanto um estado interior de recuperação e resiliência como uma atitude orientada para a ação. Para Samah Jabr, podemos compreender Sumud como um sistema de habilidades e hábitos apreendidos que produzem coletivamente estratégias de resistência, como reconstruir uma casa tantas vezes que for demolida ou replantar oliveiras tantas vezes quanto forem arrancadas. Novamente, podemos pensar nas modalidades de solidariedade e ação política orientadas para a reconstrução e para a libertação diante da destruição colonial.
Ana Carolina Gebrim é psicanalista. Pesquisadora do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política do Instituto de Psicologia da USP. Doutora em Psicologia Clínica pela USP e Institut National des Langues et Civilisations Orientales (INALCO – Paris). Tem experiência no campo das migrações, do refúgio e pesquisa a dimensão psicossocial da colonização na Palestina.
Referências
GEBRIM, Ana. Psicanálise no Front: a posição do analista e as marcas do trauma na clínica com migrantes. Curitiba: Ed. Juruá, 2020.
JABR, Samah. Sumud em tempos de genocídio. Rio de Janeiro: Ed. Tabla, 2024.
MOGHNIEH, Lamia. “(Interrupted) Writing in Apocalyptic Times: Suffering, Survival, and Rebuilding”. Perpetual Postponement, 20/12/2021. Disponível em: https://perpetualpostponement.org/interrupted-writing-in-apocalyptic-times-suffering-survival-and-rebuilding/. Acesso em: 14 set. 2025.






