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Pepe Mujica e Papa Francisco: duas vozes do Sul Global

Um dos pontos de maior intersecção das trajetórias de Mujica e Francisco era a defesa dos direitos humanos, compreendidos de forma mais ampla e abrangente, como a própria defesa da vida humana.

por Miguel Enrique Stédile

José Alberto nasceu em 1935 nas margens orientais do Rio da Prata, Montevidéu. Jorge Mario, um ano depois, na margem ocidental, Buenos Aires. O rio traça o limite entre dois países, mas não foi suficiente para que ambos transcendessem suas fronteiras. Nem o fato que Mujica, ateu convicto, e Bergoglio, como sumo pontífice, convergissem, em teoria e prática no compromisso intransigente com os mais pobres e se transformassem em lideranças reconhecidas por seus exemplos, mais do que pelos cargos que ocuparam.

Em comum, além das ascendência genovesa pela parte materna, ambos compartilham uma juventude modesta. Criado no campo, Mujica perdeu o pai cedo e num momento em que a família enfrentava dificuldades financeiras. Já Bergoglio, filho de um ferroviário, cresceu no ambiente urbano e operário do bairro Flores. No final da década de 1950, ambos já haviam encontrado suas respectivas vocações. Mujica ingressava na militância política, Bergoglio na Companhia de Jesus.

Decepcionado com os partidos tradicionais da política uruguaia, Mujica participa da fundação do Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T), adotando o caminho da luta armada para a construção do socialismo. Neste período, submerge na clandestinidade e, preso, torna-se um dos três reféns da ditadura militar uruguaia, os presos inegociáveis e mantidos em condições desumanas. Foram 13 anos na prisão (1973-1985). “Eu não sou o mesmo que fui para a cadeia. As pessoas mudam. A vida me ensinou muito, a prisão foi uma universidade. Fui para lá como um rebelde, saí como um pensador”, relembrou Mujica.

Enquanto Mujica vivia a intensidade da luta armada e a escuridão da prisão, Jorge Mario Bergoglio ascendia na hierarquia jesuíta e, posteriormente, da Igreja. Ordenado sacerdote em 1969, ele se tornou Provincial dos Jesuítas da Argentina em 1973, um período conturbado pela ditadura militar. Sua atuação nesse período foi alvo de debates, mas há relatos de seus esforços para proteger padres e estudantes perseguidos, buscando um equilíbrio complexo entre a preservação da instituição e a defesa dos indivíduos. Em 1998, tornou-se Arcebispo de Buenos Aires, onde se destacou por sua humildade e proximidade com os fiéis. Ele se recusava a morar na residência episcopal, preferindo um pequeno apartamento, e usava o transporte público. Sua figura, já em Buenos Aires, personificava uma Igreja mais voltada para os pobres.

Lideranças do Sul Global e o compromisso com os pobres

Ambos transcendem suas fronteiras locais no novo século. Libertado em 1985, Mujica iniciou a transição da luta armada para a política institucional, integrando o MLN-T à coalizão de esquerda Frente Ampla. Foi eleito deputado em 1994 e, cinco anos depois, senador. Em 2005, tornou-se ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. Em todos os cargos que ocupou, o estilo de vida simples, a austeridade pessoal e o compromisso com causas sociais se tornam suas marcas. É eleito presidente da República em 2009.

Já Bergoglio, nomeado cardeal em 2001, participou do conclave que elegeu Bento XVI em 2005, onde já era visto como um forte candidato. Até a renúncia de Bento XVI, continua seu trabalho pastoral em Buenos Aires, consolidando sua imagem de líder humilde e comprometido com a justiça social. Eleito no conclave de 2013, é notório o episódio em que, logo após a confirmação de sua eleição, o então ainda cardeal recebeu o primeiro cumprimento e um conselho do cardeal brasileiro Dom Claudio Hummes, “não se esqueça dos pobres”. Com este compromisso, Jorge Mario adotou como nome Francisco.

Como disse, em seu primeiro pronunciamento como papa, “meus irmãos cardeais foram me buscar no fim do mundo”. Francisco foi o primeiro papa latino-americano, o primeiro do hemisfério sul e o primeiro não europeu em treze séculos. “Sou do Sul, venho do Sul” diria Mujica em seu primeiro pronunciamento na Assembleia das Nações Unidas, em 2013. Nos anos seguintes, Mujica e Francisco seriam também porta-vozes do Sul Global, que emergia descontente com a unipolaridade e o pensamento único dos anos neoliberais.

Se as décadas de 1950 à 1970, que forjaram a personalidade das gerações crescidas no pós-guerra, era de utopia e promessas, de desejos de emancipação e desenvolvimento, o novo século se iniciava sobre a sombra do terror econômico, de políticas de austeridades que penalizavam ainda mais os mais vulneráveis, e da intolerância e da intransigência. Mas, os anos anteriores à ascensão do novo papa e do presidente uruguaio foram também de contestação e de desafio à ordem global, em especial no continente latino-americano.

A presidência de Pepe Mujica (2010-2015) e o pontificado do Papa Francisco (2013-2025) revelaram uma notável convergência de valores e prioridades. Mujica, o “presidente mais pobre do mundo”, continuou a viver em sua chácara humilde, doando cerca de 90% de seu salário presidencial. A imagem do presidente floricultor, com seu fusca azul, mateando com simplicidade parecia comprovar sua própria definição, “o poder não muda as pessoas, revela quem elas realmente são”.

Seu mandato deu prosseguimento e expandiu os programas sociais de combate à pobreza e à exclusão que a Frente Ampla já havia implementado no governo de Tabaré Vazquez, assim como o crescimento econômico, que permitiu aumento da renda média salarial, a redução do desemprego em praticamente pela metade e, consequentemente, uma distribuição de renda mais igualitária. A Confederação Sindical Internacional definiu o Uruguai como o país mais avançado nos “direitos fundamentais do trabalho, em particular na liberdade sindical, no direito à negociação coletiva e no direto à greve”.

Seu mandato ganha ainda notoriedade com a promulgação das leis que legalizaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a descriminalização do aborto, antes rejeitada pelo governo de Tabaré, e pela legalização da produção, distribuição e venda de maconha para uso recreativo, sob controle estatal.

O papa Francisco, por sua vez, iniciou seu pontificado com uma mensagem clara de uma “Igreja pobre para os pobres”. Assim como Mujica, mantêm um estilo de vida simples, recusa joias e adornos papais, residindo na Domus Sanctae Marthae ao invés do Palácio Apostólico. Quando se pronuncia, prefere a informalidade e a humildade, recorre às metáforas e uma linguagem cotidiana para ser compreendido para além dos fiéis. Internamente, seu papado é marcado por reformas, maior transparência na cúria romana, pelo combate aos casos de abusos sexuais no clero e pela busca do diálogo inter-religioso. Sua primeira grande exortação apostólica, Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho, 2013), é um chamado a uma Igreja “em saída”, que vai ao encontro das “periferias existenciais” e denuncia a “economia que mata”. Neste documento, já está presente também sua preocupação com a questão ambiental que, mais tarde, estaria no centro da encíclica Laudato Si (Louvado Seja, 2015), propondo uma “ecologia integral” que conecta a questão ambiental com a justiça social.

A questão ambiental era uma preocupação recorrente também nos discursos de Pepe Mujica. Assim como Francisco, Mujica criticava a sociedade de hiperconsumo “que está agredindo o planeta”, como declarou na Rio+20, em 2012, no Brasil. “Não se trata de voltar à época das cavernas, nem de fazer um ‘monumento ao atraso’. Mas não podemos seguir indefinidamente sendo governados pelo mercado – temos que governar o mercado” discursou, “mas temos que entender que a crise da água e a agressão ao meio ambiente não são a causa. A causa é o modelo de civilização que construímos. E o que temos que revisar é a nossa forma de viver”.

“Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objetivos arrasados por um desenfreamento megalômano” escreveu Francisco no Laudato Si, um documento que também criticava duramente a desigualdade econômica, incluindo a dívida externa imposta aos países pobres. Aqui, já estavam presentes duas ideias que seriam constantes no pensamento de Francisco, a ideia de uma “ecologia integral” que abrange as dimensões ambiental, social e econômica, e a ideia da “Casa comum”, que por ser compartilhada, precisa ser cuidada coletivamente.

Um dos pontos de maior intersecção das trajetórias de Mujica e Francisco era a defesa dos direitos humanos, compreendidos de forma mais ampla e abrangente, como a própria defesa da vida humana. No pontificado, sua voz se elevou em defesa dos direitos dos migrantes, dos refugiados, dos oprimidos e dos marginalizados em todo o mundo.

“Muitas vezes constata-se que, de fato, os direitos humanos não são iguais para todos”, escreveu Francisco em Fratelli Tutti (Todos Irmãos, 2020),

Persistem hoje no mundo inúmeras formas de injustiça, alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo econômico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até matar o homem. Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra parte vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados”. Na sua íntegra, a encíclica expressa uma contundente condenação a qualquer forma de desprezo pelo humano, seja por pobreza, guerra ou perseguição.

Para Mujica, essa defesa é visceral, nascida da própria experiência de opressão e tortura na ditadura. Ele, que viveu na pele a privação da liberdade e a violação de sua dignidade, se tornou um defensor fervoroso de que jamais se deve esquecer o passado para que atrocidades não se repitam. Seu governo sempre teve a memória e a justiça como pilares. Em 2012, Mujica leu um discurso em que reconhecia a responsabilidade do Estado uruguaio pelos crimes cometidos durante a ditadura militar.

Se por um lado, Mujica e Francisco criticavam de forma contundente e dura o sistema econômico e as desigualdade, por outro, não se renderam ao ceticismo ou deixaram de defender a transformação deste sistema. Não propunham uma utopia, como uma mudança a ser vivida no futuro, mas, ao contrário, defendiam que estas mudanças deveriam ocorrer no agora. Nestas menções, dois protagonistas eram destacados por ambos, o povo e a juventude.

No II Encontro do Papa com os Movimentos Populares, realizado na Bolívia, em 2015, Francisco conclui seu discurso com a exortação:

[…] o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está, fundamentalmente, nas mãos dos povos; na capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice.

No mesmo ano, no Rio de Janeiro, Pepe Mujica discursava para uma massa de jovens universitários, reivindicando que “precisamos de ferramentas coletivas para tentar modificar a realidade. Os homens sozinhos, isolados, por mais geniais que sejam, não são mais que franco-atiradores. Os franco-atiradores nunca ganharão as batalhas. Quem ganha são as massas. Para que exista mudança, são necessários gigantescos seres coletivos. É preciso superar o individualismo e criar consciências coletivas, se querem ter força para incidir na sociedade”.

Aos jovens, escreveu Francisco:

Jovens, não renuncieis ao melhor da vossa juventude, não fiqueis a observar a vida da sacada. Não confundais a felicidade com um sofá nem passeis toda a vossa vida diante dum visor. E tampouco vos reduzais ao triste espetáculo dum veículo abandonado. Não sejais carros estacionados, mas deixai brotar os sonhos e tomai decisões. Ainda que vos enganeis, arriscai. Não sobrevivais com a alma anestesiada, nem olheis o mundo como se fôsseis turistas. Fazei-vos ouvir! Lançai fora os medos que vos paralisam, para não vos tornardes jovens mumificados. Vivei! Entregai-vos ao melhor da vida! Abri as portas da gaiola e saí a voar! Por favor, não vos aposenteis antes do tempo.

Como se completasse o pensamento de Francisco, Mujica recomendava aos jovens,

Não há nada mais lindo que a vida, mas é preciso defendê-la pela liberdade. E não deixe que te roubem a liberdade. A liberdade não se vende: a liberdade se ganha, e se ganha fazendo algo pelos demais, sem mandar a conta. Isso se chama solidariedade. Trata-se de uma luta entre o egoísmo natural – que a natureza nos põe para que cada um lute pela sua vida e as de seus entes queridos – e a solidariedade – que é o interesse da espécie, do caminhar do homem sobre a Terra. Sem solidariedade, não há civilização.

Pepe Mujica e o Papa Francisco encontraram-se apenas duas vezes em suas vidas, em 2013 e 2015. Desde 2022, os dois pretendiam reunirem-se novamente, desta vez longamente, para discutirem o combate à pobreza e às mudanças climáticas, assim como os conflitos bélicos que emergiram nos últimos anos. Ambos manifestaram inúmeras vezes condenação ao genocídio palestino em Gaza. Porém, a saúde dos dois platinos deteriorou-se nos últimos anos, adiando o novo encontro. O papa Francisco nos deixou em abril. Curiosamente, a última postagem de Mujica em suas redes sociais foi justamente de despedida ao Papa: “Francisco não passou pela vida como um homem neutro, mas como um homem religioso comprometido com seu modo de pensar e sentir. Eu honro e nunca esqueço este papa, um amigo que, acima de tudo, tinha uma causa humana formidável pela qual viver”. Em Maio, Mujica partiu.

Jorge e José nasceram em um mundo de promessas, vivenciaram a perda dessas utopias e um mundo regido pelas normas do individualismo e do consumo. Não se resignaram. E cada qual à sua maneira, lutaram não só contra a ordem e o pensamento único estabelecido, como militaram propondo uma sociedade mais justa e igualitária, reequilibrando as relações entre os seres humanos e a natureza e da humanidade consigo própria. Suas vidas, embora com percursos tão distintos, servem como um testamento da força do compromisso inabalável com o bem comum. De Montevidéu a Buenos Aires, do ativismo revolucionário à liderança espiritual, Pepe e Francisco deixaram um legado de simplicidade, humanidade e um chamado persistente à solidariedade e à justiça.

Miguel Enrique Stédile é doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integrante da coordenação da Tricontinental Instituto de Pesquisa Social.

Referências

MUJICA, José. Discurso na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio+20. Rio de Janeiro, 2012. Disponível em: https://medios.presidencia.gub.uy/jm_portal/2012/noticias/NO_E600/mujrio.pdf. Acesso: 06 out. 2025.

MUJICA, José. Postagem Instagram. Redes sociais. 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/pepe.mujicaok/?utm_source=ig_embed&ig_rid=628fb59e-177a-41c1-82aa-6c8189915372. Acesso: 06 out. 2025.

PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Fratelli Tutti do Santo Padre Francisco sobre a fraternidade e a amizade social. Vaticano, 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.pdf. Acesso: 06 out. 2025.

PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’ do Santo Padre Francisco sobre o cuidado da casa comum. Vaticano, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso: 06 out. 2025.

PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Santo Padre Francisco ao episcopado, ao clero às pessoas consagradas e aos fiéis leigos sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. Vaticano, 2013. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html. Acesso: 06 out. 2025.

PAPA FRANCISCO. Discurso do Santo Padre ao II Encontro Mundial dos Movimentos Populares. Expo Feira de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), 9 de Julho de 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html. Acesso: 06 out. 2025.