30 Anos Esta Tarde

A memória do Massacre de Eldorado do Carajás na fotografia de João Roberto Ripper

Por Kita Pedroza, Breno Lima e Sara Gehren, do Acervo João Roberto Ripper

No fim da tarde do dia 17 de abril de 1996, cerca de 150 policiais militares abriram fogo contra trabalhadores e trabalhadoras rurais do Movimento Sem Terra que protestavam pacificamente pela desapropriação de terras do complexo de fazendas Macaxeira, na rodovia que liga os municípios de Eldorado do Carajás e Marabá, no sudeste do Pará. Dezenove camponeses morreram na hora e dois no hospital, resultando no assassinato de 21 pessoas e em dezenas de pessoas feridas, que carregam sequelas no corpo e na alma e seguem buscando reparação. O conluio entre as forças políticas e as elites econômicas locais impôs a violência desmedida contra as centenas de famílias que marchavam até Marabá e Belém, deixando rastros evidentes de execuções sumárias por parte dos agentes estatais. Essa dinâmica atravessa governos, obstrui a reforma agrária e garante a impunidade de mandantes e perpetradores deste e de outros massacres. Apenas os dois comandantes dos batalhões envolvidos na ação foram condenados, mas recorreram em liberdade e obtiveram o benefício da prisão domiciliar para o cumprimento da maior parte de suas penas. Os seus superiores que ordenaram a ação de retirada dos manifestantes “a qualquer custo” – entre eles, notadamente, o então governador do Pará, Almir Gabriel – nunca foram responsabilizados. 

Há 30 anos, o Massacre de Eldorado do Carajás marcou um dos capítulos mais brutais na história recente dos conflitos por terra no Brasil. Para o fotógrafo João Roberto Ripper, que documenta conflitos agrários no Brasil há cerca de 40 anos, devemos relembrar este evento porque “depois desse massacre, vários outros aconteceram”. Jogar luz sobre este episódio é contribuir com a produção de uma memória coletiva e um entendimento de que a violência continua a estruturar as disputas por terra e poder no nosso país. É lutar para transformar um Estado que mostra suas feições coloniais até os dias de hoje. Uma das formas de partilhar esta memória é por meio do acesso à documentação fotográfica sobre o caso produzida por Ripper, cujo acervo público está em processo de organização no ICICT/Fiocruz. 

Enterro das vítimas do Massacre, Curionópolis, Pará, 1996.

A fotografia humanista de João Roberto Ripper tem um método muito particular, moldado ao longo do tempo, a partir do encontro entre suas escolhas políticas, estéticas e espirituais e as realidades de violência que fotografa. Seu fazer fotográfico não é um mero registro: é pautado por uma ética da cumplicidade, da escuta, da partilha de afetos. Além disso, seu trabalho também é marcado por uma atuação comprometida com populações cujos direitos são sistematicamente violados. Ele cria uma relação e uma história com os territórios que documenta. Quando chegou com poucos recursos no sul do Pará para fotografar os momentos seguintes à tragédia de Eldorado do Carajás, estava retornando a um lugar que conhecia bem, com dinâmicas, belezas e conflitos que documentava há pelo menos uma década. Ainda assim, o que encontrou foi diferente do que já havia visto. 

“Eu documento questões agrárias, histórias agrárias, populações rurais. E vou tendo acesso às populações do sul do Pará. (…) Vou a vários municípios onde ouço histórias e vou aos locais acompanhar essas histórias. Então, eu estava bem integrado com esse tipo de violência que tem. E esse tipo de violência também com a participação direta do Estado, onde se anula, se proíbe, se desfaz e não se leva adiante muitas denúncias. (…) Eu conhecia violências. Eu tinha fotografado já trabalhadores mortos, assassinados, feridos, mas eu não tinha fotografado um massacre.” 

Caixões dos trabalhadores mortos são colocados em caminhões no pátio do IML de Marabá, Pará, 1996.
Familiares e militantes carregam os caixões de seus companheiros até o local do enterro, em Curionópolis, Pará, 1996

Ripper documentou o percurso dos corpos das vítimas, do IML de Marabá até seu sepultamento no dia seguinte, em Curionópolis, a mais de 100 km de distância. Havia uma atmosfera tensa e triste, exacerbada durante as primeiras horas da documentação. Convocado por entidades de direitos humanos, ele fotografou a serviço da perícia reivindicada para mostrar o estado dos corpos e suas mutilações. Estas imagens subsidiaram relatórios e foram utilizadas no processo judicial contra os acusados. 

“Fazer as fotos da perícia era importante para o documento em si. Fazer também te deixava um pouco preso de não estar rodando o restante. Normalmente, você não precisa numa reportagem ter, nesse caso, todos os 19 mortos, com todos os 19 tiros, feridos, mas eu precisava fazer isso, porque tinha que servir como prova. E é muito brabo. Porque eu tinha que fotografar todos os tiros, todas as facadas, todas as estocadas, todos os ferimentos que as pessoas tinham, e eram muitos, e cuja maioria não tinha sido impugnado, não tinha sido denunciado na primeira autópsia, por isso ela é refeita. (…) Era extremamente triste, dava vontade de chorar.”

Mulher se emociona durante enterro dos trabalhadores mortos na Curva do S. Curionópolis, Pará, 1996.

O olhar cúmplice que Ripper se propõe a ter é o mesmo que o vulnerabiliza diante da dor do outro. Estar junto é também sentir, sofrer e amar junto. Para ele, é fundamental que a comunicação sirva para questionar e desmontar as narrativas de violência e, para isso, que proponha, sobre o outro, um doce olhar. Sem jamais naturalizar ou reduzir as pessoas às injustiças que sofrem, ele sempre evidencia a sua humanidade, sua dignidade, seu afeto, produzindo empatia, reconhecimento e bem-querer. 

As escolhas de vida e trabalho do fotógrafo o levaram a conhecer situações extremas. Histórias sangrentas, como a ocorrida em Eldorado do Carajás. Mas essas escolhas também lhes permitiram conhecer quem resiste, quem luta, quem se propõe a enfrentar essas violências. Pessoas que se entregam à luta por um mundo mais justo – como Frei Henri des Roziers, Irmã Adelaide Molinari, Padre Josimo Tavares e os militantes do Movimento Sem-Terra. 

Ripper conclui que isso é o Amor, um sentimento profundo e universal de bem-querer, de respeito e de solidariedade, que se materializa também na política. Contar essa história foi como ele fez para amplificar esse sentimento, essas vozes que já gritam, mas nem todos ouvem. 

Cortejo fúnebre das vítimas do Massacre de Eldorado do Carajás, Curionópolis, Pará, 1996.

Memória em movimento: por que e como lembrar do conflito

O projeto do Acervo João Roberto Ripper, voltado para a preservação e difusão da obra do fotógrafo, realiza, como parte das suas atividades, um trabalho com relatos orais acerca de fotos que integram este material. O diálogo entre o texto narrado e as imagens atualiza e contribui para novos significados sobre as diversas documentações realizadas. O acervo está em processo de organização e este é o primeiro lote de imagens que passou por todo o processo de conservação e digitalização e está sendo disponibilizado ao público. Refletir sobre por que e como lembrar do acontecimento que teve lugar na Curva do S, há 30 anos, nos leva a pensar nos sentidos dados, hoje, por integrantes do MST a este evento, em diálogo com significados expressos na narrativa de Ripper sobre as suas próprias fotografias.   

De acordo com falas recentes do MST, esta memória estimula tanto o combate à distribuição desigual da terra e a concretização da Reforma Agrária Popular, quanto a promoção da dignidade, justiça social e esperança para a população do campo. Já para Ripper, a memória é evocada de modo a buscar impedir a continuidade das violências contra trabalhadores rurais que seguem em curso no Pará, na região amazônica e no Brasil. Além disso, relembra ameaças sofridas que convocam também a considerar os cuidados necessários com os efeitos destas violências e traumas. Dados da Comissão Pastoral da Terra demonstram que nos últimos 40 anos ocorreram cerca de 50 mil conflitos no campo brasileiro, sendo 80% deles causados por “atores hegemônicos” (fazendeiros, empresários, grileiros, Estado etc). Na última década, houve 12.312 conflitos por terra em todo o país. O Pará é o segundo estado com o maior número de ocorrências deste tipo, com 1.523 casos, atrás apenas do Maranhão, com 1.834 no mesmo período. Quanto aos massacres no campo (casos com 3 pessoas mortas ou mais na mesma ocorrência), foram registrados 59, em onze estados brasileiros, de 1985 a 2022.​​​​​​

Polícia civil do Pará colhe depoimentos de sobreviventes do massacre. Pará, 1996.
Polícia civil colhe depoimentos durante velório das vítimas do massacre. Curionópolis, Pará, 1996

Conforme matéria publicada pelo MST, “Ao recordar os 30 anos da ocupação da fazenda Macaxeira pelas famílias do MST, a mensagem que ecoa é clara: enquanto houver desigualdade no acesso à terra, haverá luta e a memória dos que tombaram em Eldorado do Carajás seguirá alimentando a resistência no campo paraense. Este marco histórico não é apenas sobre reivindicação de territórios, mas sobre a necessidade de se fazer a Reforma Agrária, construir dignidade, promover a justiça social e a esperança para milhares de famílias camponesas no país.”    

Ripper enfatiza o papel da comunicação nas lutas por direitos e deixa um chamado para a ação: “Essa grande disputa de informação e que a gente vê chegar aos grandes meios, ela vai estar sempre necessitando que pessoas comprometidas com os direitos humanos, com os direitos da pessoa humana, façam suas documentações e mostrem.”

Cortejo fúnebre das vítimas do massacre de Eldorado dos Carajás, Curionópolis, Pará, 1996.
Familiares e militantes em protesto enfileiram os caixões em frente ao Incra de Marabá, Pará, 1996

O conceito de esperançar, proposto por Paulo Freire, talvez expresse a complementação entre estas perspectivas, remetendo a uma postura ativa, um fazer político e uma necessidade existencial. Diferente de “esperar” (passivamente), esperançar é o verbo da ação, que envolve luta, união coletiva e a construção de um futuro melhor no presente. 

A força da luta pelo direito à terra dos militantes organizados conquistou a desapropriação, pelo governo federal, do mesmo local que foi alvo da disputa em 1996. Do que foi um campo de batalha, nasceu o Assentamento 17 de Abril, abrigando cerca de 700 famílias. Entre as maneiras de dar forma ativa e simbólica às suas memórias deste evento, o MST instituiu o “Abril Vermelho“, uma jornada nacional de lutas organizada pelo Movimento todo mês de abril. Já o Dia Internacional de Luta Camponesa foi instituído pela Via Campesina para reivindicar reforma agrária, justiça social e direitos aos trabalhadores do campo.  

Em 2016, em memória aos 20 anos do massacre, o MST, em parceria com a Anistia Internacional, instalou uma exposição com fotografias de João Roberto Ripper na Curva do S. Nos últimos anos, o Movimento trabalha para transformar o território em um complexo de memória, com a revitalização do Monumento das Castanheiras, construído em homenagem aos militantes caídos e o fortalecimento da Casa da Memória como um espaço de referência.

Quer saber mais sobre o Massacre de Eldorado do Carajás?
Acesse nossa bibliografia aqui!

Enterro das vítimas do Massacre de Eldorado do Carajás, Curionópolis, Pará, 1996.

Companheiros Caídos em 17/04/1996

1. ALTAMIRO RICARDO DA SILVA, 42 anos, casado, agricultor, filho de Juventino da Silva e Filomena Maria da Silva.  

2. ANTONIO COSTA DIAS, 27 anos, casado, filho de Conceição Alves de Souza (não consta o nome do pai).  

3. RAIMUNDO LOPES PEREIRA, 20 anos, solteiro, (não consta a filiação).  

4. LEONARDO BATISTA DE ALMEIDA, 46 anos, casado, filho de Raimundo de Souza e Luiza Batista.  

5. GRACIANO OLIMPIO DE SOUZA (BADÉ), 46 anos, casado, (não consta a filiação).  

6. JOSÉ RIBAMAR ALVES DE SOUZA, 22 anos, filho de Miguel Arcanjo de Souza e Luzia Alves de Souza.  

7. OZIEL ALVES PEREIRA, 17 anos, solteiro, filho de Alderino Alves Pereira e Luiza Alves Pereira.  

8. MANOEL GOMES DE SOUZA, 49 anos, casado, (não consta a filiação).  

9. LOURIVAL DA COSTA SANTANA, 26 anos, casado, filho de José Ferreira Santana e Francisca Xavier da Silva.  

10. ANTONIO ALVES DA CRUZ, 59 anos, casado, filho de Cristina Alves de Souza (não consta o nome do pai).  

11. ABÍLIO ALVES RABELO, 57 anos, casado, filho de João Rabelo e Rosália Rabelo.  

12. JOÃO CARNEIRO DA SILVA, fotógrafo, morava em Parauapebas (não constam outros dados).  

13. ANTONIO, CONHECIDO COMO “IRMÃO”, (não constam outros dados).  

14. JOSÉ ALVES DA SILVA, 65 anos, viúvo, filho de Carlito Alves da Silva e Januária da Silva. 

15. ROBSON VITOR SOBRINHO, 25 anos, casado, filho de Maria Antonia Vitor Sobrinho (pai não declarado).  

16. AMÂNCIO DOS SANTOS SILVA, 42 anos, solteiro, filho de João Rodrigues e Laurinda Rodrigues da Silva.  

17. VALDEMIR FERREIRA DA SILVA, conhecido como “Bem-Te-Vi”, (não constam outros dados). 

18. JOAQUIM PEREIRA VERAS, 32 anos, solteiro, filho de Raimundo Souza Sobrinho e Adelaide Maria Conceição.  

19. JOÃO RODRIGUES ARAÚJO, (não consta a idade), casado, (não consta a filiação).  

20. JOSÉ PEREIRA. Não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital.   

21. JOÃO PEREIRA. Não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital. 

PRESENTES HOJE E SEMPRE 

Familiares e militantes em protesto enfileiram os caixões em frente ao Incra de Marabá, Pará, 1996.

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