Na região Central da cidade de São Paulo, mais especificamente no território delimitado pelos bairros da Luz, Santa Efigênia e Bom Retiro, o acesso à cultura tem sido uma estratégia eficaz de redução de danos, reconstrução de vínculos e conquista de autonomia para pessoas em situação de rua. Naquele território há inúmeros coletivos culturais que atuam com a pop rua, como o Teatro de Contêiner Mugunzá, Coletivo Tem Sentimento, Pagode na Lata e Casa do Povo. Há também instituições culturais públicas, como a Pinacoteca do Estado, Museu da Língua Portuguesa e o Arquivo Municipal, que têm uma programação inclusiva voltada para esse público. Há também o Serviço Social do Comércio (Sesc-SP), por meio da Gerência de Estudos Programas e Projetos Sociais (Gepros) e da Unidade do Bom Retiro.
A coalizão inclui serviços públicos de atendimento à pop rua como o CAPS AD1 Prates, entidades assistenciais como o Serviço Franciscano de Assistência Social (Sefras) e o Movimento Nacional da Pop Rua. Esse conjunto de organizações formam uma rede que se articula em torno do Festival Pop Rua, cuja organização é do Museu da Língua Portuguesa e do Sesc-SP.
Festival Pop Rua
Promovido pela primeira vez em 2023, o Festival Pop Rua tem como tema o direito à cultura. A segunda edição foi realizada no final do mês de agosto de 2025. A primeira edição reuniu mais de 10 mil pessoas. Com uma intensa e diversificada programação cultural, o evento daquele ano contou com ampla oferta de serviços de interesse da pop rua, além de entrega de roupas e comida. Foram mais de 6 mil refeições servidas nos dois dias de atividades. Tal êxito, além de fortalecer a rede local de apoio à pop rua, mostrou o quanto o acesso à cultura é fundamental para uma população que vive sob todo tipo de violação de direitos.
Na sua primeira edição, o evento teve apoio da prefeitura de São Paulo, que autorizou o uso da rua situada em frente à Estação da Luz, onde fica o Museu da Língua Portuguesa, além da cessão do Parque da Luz. Entretanto, para a edição de 2025, a prefeitura não autorizou o uso da rua onde a organização do festival montaria barracas, facilitando o acesso às pessoas. Todos os postos de serviços e entrega de alimentos tiveram que ficar dentro do Museu e em outros espaços fechados. No Parque da Luz ficaram boa parte das oficinas e outras atividades educativas.
Na visão de muitas organizações e coletivos que são parceiros da iniciativa, a restrição imposta pela prefeitura tem a ver com o “sumiço” da pop rua do Centro. Nos últimos meses ficou visível a redução desse público por conta da dispersão da chamada Cracolândia que concentrava um contingente enorme na região da Praça Princesa Isabel e adjacências. Houve também outras medidas que corroboraram essa dispersão forçada, como o policiamento ostensivo e a retirada de pontos de venda de material reciclável. No entendimento do movimento cultural, a prefeitura quer evitar a volta da pop rua para o Centro, escamoteando uma realidade para a qual não consegue dar uma resposta eficaz.
Uma prefeitura contra a cultura
Essa não foi a primeira investida da prefeitura contra iniciativas culturais. No início do ano foram proibidas apresentações musicais na avenida Paulista aos domingos, quando a rua fica fechada para carros e aberta aos pedestres. Em seguida veio a demolição do Teatro Vento Forte, que ficava no Parque do Povo na Zona Sul, onde também funcionava uma escola de capoeira. No final do semestre o Teatro de Contêiner, que está há mais de 10 anos no território onde acontece o Festival Pop Rua, foi surpreendido com uma ordem de despejo. Houve uma violenta tentativa de reintegração de posse em agosto, mas o Teatro e o Coletivo Tem Sentimento, que também ocupa o espaço, resistiram e seguem na luta.
Mais recentemente houve o cancelamento da Festa Literária Internacional Pirata de Editoras Independentes (Flipei) que aconteceria na Praça das Artes, espaço vinculado ao Teatro Municipal. O evento acabou sendo acolhido no Galpão Elza Soares, do Movimento Sem Terra. Enquanto isso, na Câmara Municipal, vereadores de extrema direita aliados do prefeito Ricardo Nunes aprovaram leis que restringem a contratação pela prefeitura de artistas do funk, com nítido objetivo de criminalizar essa expressão cultural identificada com a juventude negra das periferias2.
Apesar da recusa da prefeitura em autorizar o uso da rua, o Festival Pop Rua aconteceu mais uma vez com grande êxito entre os dias 28 e 30 de agosto, com uma programação cultural e de serviços muito ampla. O evento contou com a participação de um grupo de voluntários para o atendimento ao público, como experiência de engajamento social muito relevante. A iniciativa do Festival evidenciou o empenho das instituições culturais na atenção à população de rua e na articulação com o território.
Contexto social da Pop Rua
O Festival contribuiu para visibilizar o contexto social da Pop Rua e provocar uma discussão sobre o direito à cultura para pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade extrema, representando uma reflexão necessária e urgente. Isso implica reconhecer a pop rua como sujeito de direitos em defesa de políticas públicas para esse segmento, fazendo valer os marcos legais existentes na cidade e no país.
Segundo projeções baseadas no levantamento do Observatório da Universidade Federal do Estado de Minas Gerais (UFMG), o número de pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo em 2025 é de 96.2203. Esse número é três vezes maior do que o apontado pelo Censo da Prefeitura de São Paulo, realizado pela última vez em 2021, que indicava um total de 31.884. Notadamente, a pandemia do coronavírus somada à negligência do governo federal na época resultaram nessa elevação vertiginosa. Porém, não houve recuo depois de 2023, apesar do aumento se dar em ritmo menos acelerado. Estamos, portanto, diante de uma situação que denota o quanto a população em situação de rua é produto de uma estrutura social desigual e de um processo de urbanização excludente.
A maioria das pessoas em situação de rua é negra (70%); masculina (79%) e tem entre 18 e 59 anos (83%). A minoria é criança (3%) e idosa (9%)4. São inúmeros os fatores que levam pessoas à situação de rua, mas há três em comum: pobreza, falta de moradia adequada e desestruturação de vínculos. Esses vínculos são, na maioria dos casos, relacionados à família. Depois da pandemia tivemos muitos casos de famílias inteiras que foram viver nas ruas.
Não obstante, há marcadores sociais que diversificam esse quadro aparentemente homogêneo, tais como identidade de gênero, orientação sexual, imigração, conflitos com a lei, saúde mental, entre outros. Em nível federal, o levantamento feito pelo Ministério dos Direitos Humanos revelou também que 90% da população em situação de rua sabe ler e escrever e 68% já teve emprego formal5. Ou seja, a população em situação de rua tem uma heterogeneidade decorrente das trajetórias de vida, e isso deve ser levado em conta nas políticas de atendimento.
Políticas públicas para a pop rua
Nesse sentido é recomendável que políticas públicas para a pop rua tenham uma abordagem intersetorial com foco na redução de danos e na garantia de direitos. Assim está concebida a Lei que consolida a política municipal para a população em situação de rua na cidade de São Paulo. De autoria do então vereador Eduardo Suplicy (PT), subscrito por mais cinco parlamentares, a Lei 17.252 foi aprovada em 20196. Tendo como princípio o respeito à dignidade humana e a participação social, entre outros, a referida política mobiliza onze secretarias lideradas pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania. Também orienta a criação de um comitê intersetorial com participação da sociedade civil e determina a elaboração de um Plano Municipal de Políticas para a População em Situação de Rua (PMPPSR). O comité já existia antes da lei e segue funcionando, mas o Plano não foi elaborado. Há um PMPPSR instituído por meio de portaria de 2016, que ainda serve como referência.
A política federal segue o mesmo modelo e está sob a liderança do Ministério dos Direitos Humanos, articulado com outros nove ministérios. Em 2023, para orientar essa ação coordenada, foi elaborado o Plano Nacional Ruas Visíveis. Nesse documento há políticas, programas e metas de cada ministério, e uma dotação orçamentária para a execução, além de instituir um comitê de gestão. Nos dois casos, a política cultural está presente por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa em São Paulo e pelo Ministério da Cultura (Minc) nacionalmente. Para a capital paulista, porém, as ações no setor da cultura não têm uma organização definida. Em nível federal, o Minc detalhou sua atuação indicando orçamento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura e da Política Cultura Viva, que cuida dos Pontos de Cultura. São compromissos que estão no papel, mas é preciso pressão social e iniciativas da sociedade que provoquem o poder público para garantir o direito à cultura para a população em situação de rua.
A vida que ninguém vê
A abordagem pela cultura, como propõe o Festival Pop Rua, aponta um caminho para humanizar o atendimento a esse segmento vulnerabilizado. Para além da redução de danos, a arte pode criar processos de cura para situações como drogadição e saúde mental fragilizada, e abre um horizonte para a superação da situação de rua. Assim faz o CAPS AD Prates, que tem inúmeras ações de arte, como karaokê, ateliê de artes visuais e palhaçaria. Uma dessas iniciativas é o Pagode na Lata, que é uma roda de samba que tem entre seus integrantes pessoas egressas das ruas. O grupo se apresenta nos fluxos e no Bar da Nice, um espaço de resistência no território.
O Pagode na Lata, que se tornou um coletivo independente, é um exemplo de cultura para pessoas em situação de rua. Assim também são outras iniciativas que fizeram parte da programação do Festival, como o projeto de escrita de cartas “DePara” do Museu da Língua Portuguesa, que lançou um livro que sistematiza a experiência do Projeto7. Nessa linha também é o “Guarde suas memórias”, do Coletivo Bom Retiro é o Mundo. Outro destaque é o projeto “Entre o sucesso e a lama”, liderado pelo rapper Ed Rock, que é membro do Racionais MC’s e que gravou músicas de pessoas em situação de rua do centro da cidade.
Por meio dessas e de tantas outras ações culturais é possível perceber aquilo que a jornalista Eliane Brum definiu como “a vida que ninguém vê”, ao retratar em suas reportagens8 a trajetória de pessoas anônimas, algumas em situação de rua. A pesquisadora Fernanda Almeida9 alerta que nos habituamos a ver as pessoas em situação de rua somente pela lente do problema: fome, frio, enfermidades. Ela nos ensina, porém, que é preciso subjetivar a relação com essas pessoas e defende que a arte e a cultura são fundamentais para isso. O Festival Pop Rua foi idealizado e realizado pelo Sesc-SP e Museu da Língua Portuguesa com esse objetivo: aproximar, reconhecer a individualidade das pessoas e incluí-las. O evento seguirá sendo realizado com ou sem apoio da prefeitura.
1 Centro de Assistência Psicossocial Álcool e Drogas.
2 Trata-se da chamada Lei Anti-Oruam em referência a Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, o MC Oruam. A autoria é da vereadora Amanda Vettorazzo e inspirou leis semelhantes em 46 cidades de 13 estados, além da Câmara Federal e Senado (até julho/25).
3 Dados compilados pela pesquisadora Fernanda de Araujo Almeida apresentados em palestra dia 22/07/2025 no curso para voluntários do Festival Pop Rua.
4 Idem.
5 Plano Nacional Ruas Visíveis, Ministério dos Direitos Humanos, Governo Federal, p. 19.
6 Caio Miranda Carneiro, Juliana Cardoso, Patrícia Bezerra, Soninha Francine e Xexéu Trípoli.
7 DePara – Banquete de Memórias, Cartas e Receitas. Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, 2025.
8 A Vida que ninguém vê era uma coluna da jornalista na Zero Hora de Porto Alegre ainda nos anos de 1990 e que foram compiladas posteriormente em livro publicado pela editora Arquipélago em 2006.
9 Psicanalista, assistente social e professora universitária. Trabalha em um CAPS AD.






