Entre os meses de abril e maio de 2024, o estado do Rio Grande do Sul foi afetado por uma das maiores tragédias climáticas recentes. Entre os dias 27 de abril e 2 de maio daquele ano, os órgãos especializados registraram que choveu entre 500 e 700 milímetros, o que corresponde a um terço da média histórica para todo um ano. Entre 3 e 5 de maio, novas precipitações alcançaram entre 300 e 400 milímetros, agravando ainda mais a situação. As chuvas torrenciais ergueram o leito dos rios acima do tolerável e as águas invadiram lavouras, ruas, casas e comércios, inclusive na capital, Porto Alegre, onde o lago Guaíba, que banha a cidade, chegou, em 5 de maio, ao recorde histórico de 5,37 metros. Além de Porto Alegre, outros 478 municípios foram afetados (60% do território do estado), especialmente na Região Metropolitana, na região Central, na Serra e nos Vales (principalmente do Rio Taquari). Nessas regiões, milhares de pessoas sofreram com alagamentos e deslizamentos, fechamento de estradas, rompimento de barragens, queda de árvores, falta de energia e de redes de comunicação. Dados oficiais dão conta de que essa tragédia climática deixou 184 mortos e 25 desaparecidos, além dos inúmeros animais que morreram afogados.
Estima-se que 2,4 milhões de pessoas tenham sido afetadas pelas enchentes e 442 mil pessoas tiveram que deixar suas casas, passando a viver em 18 mil abrigos. Dados da Secretaria de Saúde Indígena do Rio Grande do Sul informam que 16 mil indígenas de 84 comunidades foram afetados pelas enchentes1. Além disso, matéria do Jornal O Globo, de 29/05/2025, intitulada “Um ano após enchentes, falta de moradias e subnotificação de desabrigados dificultam recuperação de vítimas no RS”, indica que grande parte dos atingidos não conseguiu acessar os programas de governo e viram sua situação de pobreza e vulnerabilidade agravada. Um dos casos citados na reportagem é do Quilombo dos Machados, em Porto Alegre: “O quilombola Rogério Machado, de 43 anos, liderança do Quilombo dos Machado, em Porto Alegre, recorda com pesar os dias de terror vividos no ano passado, quando quase metade dos 4,5 hectares do território – lar de 1.260 pessoas – foi devastado pelas enchentes. Localizado no bairro Sarandi, epicentro do desastre na capital gaúcha, mais de cem famílias perderam tudo e cerca de 25% delas ainda não conseguiram se reerguer totalmente.” (O Globo, 2025). A realidade da maior parte das famílias pobres afetadas mostra que as verbas e ajudas foram insuficientes e as dívidas dificultam a situação de precariedade, agravando a vulnerabilidade social e climática dessas famílias.
Os custos da tragédia também pesam sobre os cofres públicos. Segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), as enchentes causaram 4,6 bilhões de reais em prejuízos. A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) afirmou que a catástrofe causou o maior sinistro no setor de seguros da história brasileira2.
Nos meses de abril e maio de 2024, 69% dos municípios da Amazônia legal sofriam uma grande seca3, precisamente durante o período chuvoso, comprovando a anomalia climática que afeta o país. Um ano antes, em 2023, o Brasil registrou seu recorde de desastres naturais. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) registrou 1.161 eventos em 20234, 716 estavam ligados a inundações e 445 a deslizamentos, o que resultou em 132 mortes, mais de 9.200 feridos e cerca de 74 mil desabrigados. Os prejuízos chegaram a 25 bilhões de reais, sendo mais de 5 bilhões destinados à reparação de infraestrutura e moradias.
Em janeiro de 2011, chuvas intensas e prolongadas causaram deslizamentos e inundações na cidade de Petrópolis (RJ), causando cerca de 900 mortes e levando à devastação de bairros inteiros. Esse foi um dos episódios mais letais do Brasil e afetou principalmente pessoas pobres e negras que viviam em morros ou regiões de maior vulnerabilidade climática5. Em dezembro de 2021 e janeiro de 2022, Bahia e Minas Gerais sofrerem os impactos das chuvas. Na Bahia, 165 municípios foram afetados, com 26 mortos e mais de 500 feridos6. Em Minas Gerais, 30 mortes foram confirmadas em 435 municípios, com mais de 60 mil desalojados7. Entre 2010 e 2017, o Nordeste brasileiro enfrentou as secas mais severas das recentes décadas, atingindo milhões de pessoas, com colapso hídrico em áreas rurais e impactos sociais e econômicos profundos. Inundações, deslizamentos e secas prolongadas respondem por cerca de 85% dos eventos naturais com impacto humano produzidos ao redor do mundo. A lista de tragédias é imensa e a tendência é que se agravem nos próximos anos.
No sul da Bahia, em 2022, 78% da população afetada era negra; em Minas, 72%; em Petrópolis, 36,3% se identificavam como negros. No Amazonas, em 2021, 73% dos afetados eram indígenas; no Pantanal, em 2020, 61% eram indígenas. Nos incêndios que atingiram o Brasil em 2019, 74% eram pardos ou pretos. Na tragédia de Brumadinho, 51% da população afetada era negra. Dados coletados por especialistas indicam que, ao redor do mundo, 80% das pessoas afetadas pelas mudanças climáticas são mulheres8. O presidente da COP 26 afirmou que “1 a cada 10 mulheres afetadas vivem abaixo da linha da pobreza no mundo, cerca de 10% da população feminina mundial”.
Discrepância de responsabilidades
O sistema que gera a emergência climática é o mesmo que tem mantido as desigualdades sociais, com grande parte da população vivendo em áreas de risco, sem moradia digna, saneamento básico, educação ou trabalho. As pessoas pobres, negras ou indígenas que vivem nas chamadas áreas de vulnerabilidade são as mais afetadas por essas calamidades. Também são aquelas com mais dificuldades para se restabelecer. Trata-se de racismo climático. É preciso avaliar as discrepâncias de responsabilidade que acentuam a carga desproporcional de riscos e danos impostos sobre os grupos mais vulneráveis. Nesse sentido, a crise climática gera violações aos direitos humanos.
Os países do chamado Norte global têm historicamente causado essa crise através do modelo colonialista de exploração da natureza e emissão de gases de efeito estufa. Os países do Sul global têm sido tratados como colônias para exploração da natureza. Hickel, no seu artigo para o Livro do Clima, organizado por Greta Thunberg, escreve que “essa crise se deve sobretudo aos países abastados do Norte global” porque “o Norte global é responsável por 92% de todas as emissões que superam os limites do planeta, definidos pelos cientistas como 350ppm de concentração de CO2 na atmosfera – nível ultrapassado em 1988” (2023, p. 310)9. O autor lembra que os países do Sul global estão dentro de seus limites de emissões, não tendo contribuído “em nada para a crise”. São também os que registram “a imensa maioria dos danos, incluindo de 82% a 92% dos custos econômicos do colapso do clima, e de 98% a 99% das mortes associadas às mudanças climáticas”. Cripps (2022, p. 51)10 chama atenção para dados complementares da Oxfam e do Stockholm Environment Institute, segundo os quais “os 10% mais ricos do mundo responderam por 52% das emissões de carbono de 1990 a 2015. O 1% mais rico produziu mais que o dobro das emissões da metade mais pobre do mundo”. A filósofa cita dados do Climate Accountability Institute, que apontam “as 20 maiores empresas de petróleo, carvão e gás produziram 35% das emissões mundiais entre 1965 e 2018”. Dessa forma, se é verdade que o perigo nos une (Larrère, 2017, p. 5), é também verdade que ele nos separa, porque, como sugeriu Beck (1001, p. 65), “a penúria é hierárquica, a poluição é democrática”.
Williams (2021, p. 25), autor de Climate change is racist: race, privilege and the struggle for climate justice (A mudança climática é racista: raça, privilégio e a luta pela justiça climática)11 observou que “apenas 100 empresas são responsáveis por 71% do CO₂ (Relatório Carbon Majors, 2017); 20 empresas estão por trás de um terço das emissões globais (The Guardian, 2019); quase dois terços do aquecimento global desde 1888 foram causados por 90 empresas (Mudança Climática, 2017)”. O autor lembra ainda que “os maiores emissores de carbono do mundo – em uma base per capita – estão concentrados no Hemisfério Norte e no Oriente Médio”, enquanto “as 17 pegadas mais baixas estão na África Subsaariana e nos pequenos estados insulares”, e que mesmo “os países do Sul da Ásia, como Índia, Bangladesh e Paquistão, também têm pegadas abaixo de duas toneladas por pessoa por ano” (Williams, 2021, p. 22).
Cripps (2022, p. 49) definiu essa discrepância de responsabilidades como “a mesma tempestade, mas não o mesmo barco”. A autora observa que “vozes não brancas e femininas frequentemente não são ouvidas” (2022, p. 50). Cripps ressalta a verdade contida nesse silêncio: “as mudanças climáticas são sobre privilégios”. Para Williams a questão racial é essencial para compreendermos os impactos das mudanças climáticas: “aqueles que são mais responsáveis por danificar a atmosfera enfrentam riscos muito menores, enquanto os maiores perigos recaem sobre aqueles que são menos responsáveis. Esta é a injustiça das mudanças climáticas” (2021, p. 11).
A urgência da educação climática
No livro Frágil equilíbrio: justiça climática e responsabilidade ambiental12 tratamos desse tema. “Os dados mostram a gravidade da situação e a urgência do debate em torno da justiça climática: os países ricos têm ‘terceirizado’ os danos para os países pobres, os quais não só permanecem à margem das pretensas vantagens do progresso, como também, sobretudo, pagam o preço mais alto” (2025, p. 101). É por isso que Hickel afirma que “a crise ecológica segue o mesmo roteiro do colonialismo” (2023, p. 311), na medida em que o crescimento do Norte se ampara na expropriação dos ecossistemas do Sul Global e mantém milhões de pessoas à beira das catástrofes.
Uma das cenas mais tristes da tragédia do Rio Grande do Sul foi transmitida em uma rede de televisão. O repórter, com água até o joelho, entrevistava um pescador de Pelotas que via sua casa alagar, enquanto a água da Lagoa dos Patos subia sem parar. Desolado, o homem declarou ao repórter: “Fazer o que né? Se é vontade de Deus! Não podemos fazer nada contra a natureza”. Essa declaração mostra que muitas pessoas ainda não conseguem compreender que as tragédias são fabricadas por uma elite poluidora. É preciso ampliar a compreensão sobre o sistema socioeconômico que fabrica essas tragédias.
Greta Thunberg escreveu: “Não há no mundo nenhuma outra história tão importante e ela precisa ser contada até onde nossas vozes chegarem, e muito além. Ela precisa ser contada em livros e artigos, em filmes e canções, à mesa do café da manhã, do almoço e do jantar, em reuniões familiares, nos elevadores, nos pontos de ônibus e nos armazéns na zona rural. Nas escolas, nos lugares de decisão e no chão das fábricas. Nas reuniões de sindicatos, nos grupos políticos e em estádios de futebol. Nos jardins de infância e nas casas de repouso. Nos hospitais e nas oficinas de automóveis. No Instagram, no TikTok, e no noticiário da TV. Em estradinhas poeirentas e em ruas e travessas de vilas e cidades. Agora chegou a hora de narrar isso, e até mesmo de mudar o seu final.” (Thunberg, 2023, p. 42).
Como descrevemos em Frágil Equilíbrio, há também a desvalorização dos conhecimentos das comunidades tradicionais sobre o tema do clima. Como lembra E. Cripp: “Advertências sobre o clima, nascidas desse conhecimento, têm sido ignoradas há muito tempo. Por décadas, os inuítes canadenses observaram o gelo se tornando mais macio, menos estável, formando-se mais tarde. Eles disseram isso. Mas os políticos não ouviram, até que a ciência ocidental os apoiasse. Mesmo assim, eles não agiram” (2022, p. 62). Os fatos mostram que os países mais poluidores são aqueles cujo estilo de vida está baseado no consumismo, no alto dispêndio de energia e na exploração de recursos naturais. Devemos assumir o imperativo ecológico forjado pelo filósofo alemão Hans Jonas no seu livro de 1979, O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica:“aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra” (2006, p. 47)13. Essa é nossa tarefa em defesa da justiça climática.
Jelson Oliveira, Grégori de Souza, Lucas Miguel Bugaslski e Thiago Vasconcelos são pesquisadores do Centro Hans Jonas Brasil e autores do livro “Frágil equilíbrio: justiça climática e responsabilidade” (Caxias do Sul: EDUCS, 2025). Jelson Oliveira é também membro do conselho da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
Referências
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10 E. Cripps, What Climate Justice Means and Why We Should Care.
11 J. Williams, Climate change is racist: race, privilege and the struggle for climate justice.
12 Caxias do Sul: EDUCS, 2025.
13 H. Jonas, O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez.






