João Canuto de Oliveira nasceu em 3 de janeiro de 1936, no distrito de Santa Maria, município de Trindade (GO), filho de José Raimundo de Oliveira e de Jovelina Canuto de Oliveira. Trabalhador rural, morava desde criança como agregado nas fazendas circunvizinhas à cidade de Campestre de Goiás (GO). Aos 22 anos casou-se com Geraldina Pereira de Oliveira, com quem viveu 27 anos constituindo família de seis filhos, sendo quatro homens e duas mulheres. Nas lembranças dos filhos de João Canuto e Geraldina Pereira, a convivência familiar sempre foi boa e tranquila. Mesmo levando uma vida difícil, seus pais eram felizes e transmitiam segurança, amor e cuidados com a família. Como trabalhador rural, sem emprego formal, ele fazia questão de trabalhar muito para não deixar faltar o essencial para a família, que incluía, além da esposa e filhos, sua mãe Jovelina e seu irmão Antônio Canuto.
Em 1973, quando deixou o estado de Goiás e migrou para Rio Maria, no sul do Pará, foi trabalhar na fazenda Três Irmãos com o fazendeiro Mizael Gonçalves Cardoso, com quem estabeleceu um “contrato” não formal de trabalho. A prática de contrato baseado em acordos informais era comum entre fazendeiros e trabalhadores rurais na região. Assim foram feitos roçados e implantação de pastagens. Também foi preparada a terra para o plantio de arroz, milho, feijão, batata, mandioca e outros alimentos necessários para o consumo familiar. Em dezembro de 1974, meu pai buscou a família que tinha ficado em Goiás e, ao chegar na fazenda de Mizael, minha mãe e meus irmãos também passaram a trabalhar na roça e meu pai passou a cuidar do gado da fazenda. Em troca, ele recebia o leite que era vendido na cidade.
Como a maioria dos trabalhadores rurais que migravam para o sul do Pará na década de 1970, meu pai vinha em busca de melhores condições de vida para garantir um futuro melhor para a família. “Amazônia: terra sem homem para homem sem terra” era a propaganda governamental para atrair trabalhadores rurais que buscavam terra e melhor qualidade de vida através da agricultura. No Pará a terra era farta, mas os governos militares criaram condições de acesso apenas para latifundiários, que instalaram suas fazendas e empresas na região.
Meu pai era trabalhador rural sem-terra e acreditava que no Pará teria condições de adquirir um pedaço de terra para criar sua família com dignidade, através do trabalho e produção no campo. Porém, sem contrato formal ficou à mercê dos fazendeiros (Mizael e filhos), trabalhando sem nenhum direito legal garantido. Havia uma relação trabalhista baseada na exploração e meu pai nem sempre recebia o que o patrão havia combinado de pagar pelo serviço prestado. Com cinco anos de trabalho na fazenda Três Irmãos, meu pai conseguiu comprar uma pequena posse de terra na região conhecida como Água Fria e iniciou os preparativos para mudar. Ele preparou a terra para fazer a primeira roça para se estabelecer com a família na nova morada, que poderia chamar de sua. Era início de 1978 quando meu pai deu um passo importante para sua independência, para deixar o trabalho na fazenda e seguir para sua própria terra. Em agosto de 1978 a família foi surpreendida com a queima do paiol onde guardava sua produção de alimentos. Havia 80 sacos de 60 quilos de feijão, 16 sacos de 60 quilos de arroz e farinha, suficientes para manter a família enquanto chegasse o tempo de nova colheita. Foram queimados também outros alimentos e animais de pequeno porte, como porcos e galinhas.
Este foi o primeiro grande prejuízo que meu pai sofreu naquela fazenda. Ainda em 1978, ele foi preso por 72 horas. Na prisão a polícia pressionava para que ele assinasse um termo de desistência de direito de posse. Ele resistiu à humilhação da polícia que estava a serviço do patrão, pois até o jipe usado na prisão pertencia ao fazendeiro. Sem pagar os prejuízos causados pelo fogo nem os direitos trabalhistas reclamados na justiça, o fazendeiro expulsou minha família para a cidade, usando a força da Polícia Militar de Conceição do Araguaia, sem ordem judicial, quando meu pai estava fora de casa. Estas lembranças permanecem vivas porque marcaram profundamente a história de meu pai e da nossa família. Isso também despertou em nós um sentimento de que era preciso resistir à opressão e continuar lutando por dias melhores. Assim, meu pai seguiu em busca de justiça, que ignorou seus pedidos.
João Canuto se inseriu nas lutas dos trabalhadores por direitos. Ele reconhecia a importância de estar filiado a uma representação de classe e filiou-se ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campestre de Goiás. No Pará, filiou-se ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia, município ao qual Rio Maria esteve ligado até 1982. Em Conceição do Araguaia ele também conheceu a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e estabeleceu relação de amizade e confiança com Ricardo Rezende Figueira, participando da sua ordenação como padre em 1979. Na CPT recebeu o primeiro atendimento do jovem advogado Paulo Cezar Fonteles de Lima, com quem estabeleceu uma relação de confiança e amizade.
Ao mesmo tempo em que estreitou as relações com a igreja católica através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e da CPT, criou uma relação de confiança e afinidade política com Paulo Fonteles, o que contribuiu para sua atuação sindical e política na região do Araguaia paraense. Fonteles, na clandestinidade, pertencia ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e foi preso com sua esposa Ecilda antes de trabalhar como advogado da CPT em Conceição do Araguaia. Por meio da relação com Paulo Fonteles meu pai passou a incorporar leituras de concepção marxista, que chegavam através de panfletos, livros e jornais que circulavam de forma restrita entre camponeses na região do Araguaia paraense.
Na cidade, passou a integrar as CEBs, contribuindo nas atividades da igreja local. Junto com Expedito Ribeiro de Souza, José Alves de Carvalho, Oneide Rosa e outros companheiros, ele colaborou decisivamente para a criação da Igreja São João Batista nos bairros Vila Nova, São Pedro e São Paulo e no Bairro Cascalheira. Também participou da formação da primeira Associação de moradores que integrava os dois bairros. Na região, meu pai fez parte da Chapa de Oposição Sindical no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia. Junto com seus companheiros de luta se opôs ao sindicalismo pelego, representado pelo médio proprietário rural Bertoldo Siqueira de Lira, indicado pelos governos militares para sindicatos que eram assistencialistas e não defendiam os interesses dos trabalhadores.
Meu pai agia com integridade e defendia o direito à terra, à vida, à valorização do ser humano, contrário à escravização das pessoas e a todas as formas de violência contra os trabalhadores. Naquele período o sindicalista Raimundo Ferreira Lima, conhecido como Gringo, encabeçava a Chapa da Oposição. Devido a sua militância em defesa dos trabalhadores, ele foi assassinado em 29 de maio de 1980. A morte de Gringo causou grande impacto entre os trabalhadores e seus companheiros deram continuidade à luta por terra e direitos. Isso gerou perseguições de fazendeiros apoiados por militares, como Sebastião Rodrigues de Moura, o “Major Curió”, conhecido na região pela violência contra trabalhadores.
A Oposição Sindical em Rio Maria contava com a participação de algumas lideranças como João Canuto, Expedito Ribeiro e José Alves de Carvalho. A emancipação política de Rio Maria, em 13 de maio de 1982, possibilitou outra perspectiva para enfrentar o sindicalismo pelego: retomar a antiga delegacia sindical ligada a Conceição do Araguaia e fundar um sindicato classista dirigido por trabalhadores. A luta no campo político se deu também com a participação de João Canuto como candidato a prefeito na primeira eleição da cidade pelo MDB, se contrapondo ao fazendeiro Adilson Carvalho Laranjeira, também da sublegenda do MDB, mas perdeu a eleição por poucos votos. Na cidade ficou a impressão de que ele teve mais votos, mas perdeu na apuração em Conceição do Araguaia, sob influência da polícia militar que conduziu as urnas até aquela cidade. Com a participação nas eleições de 1982 João Canuto tornou-se mais conhecido.
Em maio de 1983, juntamente com seus companheiros da Oposição Sindical e outros – como Roberto Neto da Silva, Jesuíno Pereira de Souza e Valdério Pereira dos Santos –, fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria. Essa era uma organização sindical autônoma que defendia a reforma agrária. Isso atraiu o ódio de fazendeiros que fundaram o Sindicato Rural e, posteriormente, a União Democrática Ruralista, conforme dados do Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica, no Arquivo Nacional. Durante sua militância como dirigente sindical, meu pai participava de atividades políticas como atos públicos contra a violência e a impunidade, comícios em defesa da democracia e de eleições diretas no movimento Diretas Já. Participou do primeiro Congresso da Classe Trabalhadora (CONCLAT), de congressos da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura (CONTAG) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Sua militância o tornou reconhecido, mas atraiu o ódio dos fazendeiros contra propostas de reforma agrária, impulsionadas pela organização dos camponeses e por debates sobre o Primeiro Plano Nacional da Reforma Agrária. Neste contexto, a morte do meu pai foi planejada e executada, em 18 de dezembro de 1985, por um grupo de fazendeiros. Passaram muitos anos para o crime ser apurado. Depois de forte pressão nacional e internacional, os fazendeiros Vantuir Gonçalves Cardoso e Adilson Carvalho Laranjeira foram a júri popular em Belém, em 23 de maio de 2003. Eles foram condenados como mandantes do crime, mas nunca foram presos. O primeiro encontra-se foragido e o segundo morreu idoso, de acordo com informações disponíveis.
Alguns latifundiários, principalmente aqueles que tinham grilado terras, eram ligados a União Ruralista Democrática (UDR). O plano de eliminação física de João Canuto e de seus sucessores na presidência do sindicato fez parte de uma série de crimes que atingiram amigos e parentes dos sindicalistas. Em 4 de abril de 1990, foram assassinados o sindicalista Braz Antônio de Oliveira e Ronan Rafael Ventura, seu ajudante em uma oficina mecânica. Em 22 de abril de 1990, meus irmãos José, Paulo e Orlando Canuto foram sequestrados. José e Paulo foram assassinados e Orlando, baleado, escapou com vida.
Os crimes contra os sindicalistas Braz e Ronan, e contra José, Paulo e Orlando foram praticados por um grupo de pistoleiros a serviço de fazendeiros. Entre os criminosos estão o policial militar José Ubiratã Matos Ubirajara e o sargento Edson Matos. José Ubiratã foi a júri popular em Belém, em 29 de abril de 1994, pelo crime contra os irmãos Canuto, sendo condenado a cinquenta anos de prisão, mas ficou foragido e foi recapturado após ter cometido outros crimes. O sargento Edson Matos e os demais pistoleiros ficaram foragidos e impunes. Os fazendeiros acusados como mandantes dos crimes em que meus irmãos e Braz foram vítimas foram impronunciados, ficando totalmente impunes.
Naquele período era comum ouvir falar sobre uma lista de pessoas marcadas para morrer. Ameaças eram constantes e a lista seguia sendo executada. Em 2 de fevereiro de 1991 foi assassinado o presidente do sindicato, Expedito Ribeiro de Souza. Neste crime foram identificados o mandante, o fazendeiro Gerônimo Alves de Amorim, o intermediário, Francisco Ferreira (Grilo) e o pistoleiro, José Serafim Sales (Barrerito). O caso foi a julgamento em Belém, em 7 de junho de 2000. O fazendeiro foi condenado a 19 anos e 6 meses de prisão, mas logo foi solto para cumprir prisão domiciliar. O intermediário e o executor do crime foram condenados pelo Tribunal do júri. Grilo foi condenado a 21 anos de prisão e Barrerito foi condenado a 25 anos, sendo que cumpriu oito anos e depois fugiu da penitenciária. Tempos depois foi recapturado nos Estados Unidos. Em 1991, o sindicalista Valdério Pereira dos Santos foi vítima de emboscada e sobreviveu. Carlos Cabral Pereira, meu ex-marido, foi baleado em 1991 e assassinado em 11 de junho de 2019. O crime foi apurado em segredo de justiça e hoje há um pedido de prisão preventiva do fazendeiro Ocimar do Prado, apontado como mandante do brutal assassinato.
Apesar da violência e da impunidade no Pará, é importante registrar que há resistência contra a pistolagem imposta pelos latifundiários, com denúncias e pressões em nível nacional e internacional. Entre as parcerias no combate à violência e à impunidade destaca-se a importância da CPT com registros sobre a violência no campo. Os trabalhadores rurais também buscavam apoio nas organizações como CONTAG e CUT e dialogavam com políticos do campo progressista. João Canuto se tornou liderança reconhecida entre os trabalhadores rurais. Sua vida inspirou e inspira a luta pela terra, a reforma agrária, a justiça social e a paz no campo. Seus companheiros também sofreram violência e o sangue derramado nos faz dar continuidade a sua luta por um mundo melhor, mais justo e fraterno.
O assassinato de meu pai mobilizou diversas entidades de direitos humanos nacionais e internacionais, inclusive a Organização dos Estados Americanos (OEA). A morosidade da justiça paraense favorece a impunidade. Como consequência, os assassinatos de sindicalistas tornaram-se prática corriqueira. Na lista de marcados para morrer, muitos trabalhadores, sindicalistas, religiosos, advogados e políticos progressistas foram assassinados. Buscando interpretar aquele período de grande número de assassinatos no campo, um grupo composto por filhos e viúvas de camponeses assassinados durante a ditadura militar investiga a relação entre o Estado, os fazendeiros e empresas nesses crimes. A luta é por memória, justiça e reparação.
Nos aproximamos de quarenta anos do assassinato de meu pai. A sensação que temos é a mesma que sentimos no princípio: dor, saudade e angústia de conviver com a impunidade. Ao ter acesso às fontes do Sistema de Informação do Arquivo Nacional (SIAN), quando meu pai registrava que estava correndo risco, era ele quem estava sendo vigiado pelo Estado por defender a reforma agrária e um mundo melhor. O caso do meu pai, estudado pela Comissão Camponesa da Verdade, revela a tese de que a ditadura militar colaborou com fazendeiros e empresários responsáveis pela violência no campo. Seguimos com estes estudos na defesa do reconhecimento, do direito à memória, justiça e reparação.
João Canuto vive em nossas mentes e corações, na luta do povo por um Brasil livre, democrático, sem fome, sem opressão, com justiça e paz na cidade e no campo. Suas últimas palavras – “morro, mas a semente fica” – nos inspiram a caminhar e a acreditar que um mundo melhor é possível!
Luzia Canuto é professora da Educação Básica na rede pública de ensino. Graduada e pós-graduada em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA).






