O Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo, realizado em 2025, constituiu-se como uma das principais iniciativas de mobilização social da última década. Organizado por movimentos populares, centrais sindicais, entidades estudantis, partidos progressistas e organizações da sociedade civil, o plebiscito buscou envolver a população em torno de temas estratégicos para o futuro do país. Mais do que uma mera consulta pública, a iniciativa teve um caráter pedagógico e organizativo, apostando na formação de comitês populares, na construção de redes de comunicação e na pressão sobre o poder público. Essa experiência, acumulada ao longo de meses, deve ser analisada em diálogo com a conjuntura nacional, marcada por disputas de projeto e pela reorganização das forças populares no país.
A disputa de rumos do país
O ciclo iniciado com as manifestações de 2013 abriu caminho para a crise institucional de 2016, quando o impeachment de Dilma Rousseff (PT) resultou em uma mudança significativa na correlação de forças na sociedade. A partir dali, consolidou-se uma ofensiva ultraconservadora apoiada por setores empresariais, pela grande mídia e pelo sistema de Justiça. O governo Michel Temer (MDB, 2016-2018) aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do Teto de Gastos, que congelou investimentos públicos por duas décadas, e implementou a Reforma Trabalhista, enfraquecendo sindicatos e flexibilizando direitos historicamente conquistados. A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2018 impediu sua candidatura à presidência e abriu espaço para a vitória de Jair Bolsonaro (eleito pelo PSL, depois PL).
No governo de extrema direita, medidas como a Reforma da Previdência, a privatização da Eletrobras e a autonomia do Banco Central reduziram o papel do Estado e reforçaram a agenda neoliberal. Esse período também coincidiu com um enfraquecimento das organizações populares, que enfrentaram grandes dificuldades materiais e de mobilização. No mundo do trabalho, a precarização se aprofundou: em 2023, 40% da força de trabalho estava na informalidade. As novas formas de exploração, associadas às plataformas digitais, ampliaram a vulnerabilidade. No campo ideológico, o crescimento das igrejas fundamentalistas neopentecostais e a atuação da extrema direita nas redes sociais alteraram o cenário de disputa de valores e projetos de país.
Paralelamente, o Congresso Nacional ampliou seu protagonismo ao definir a agenda política nacional e controlar fatias expressivas do orçamento público por meio das emendas parlamentares. Isso gerou um sistema político próximo ao semipresidencialismo, esvaziando o Executivo e reforçando as forças conservadoras e de extrema direita.
A vitória de Lula em 2022 interrompeu o ciclo bolsonarista e abriu um novo período na luta política, mas não representou uma mudança significativa na correlação de forças na sociedade. O terceiro mandato iniciou-se em condições muito distintas dos mandatos anteriores de Lula. A sustentação do governo dependeu de uma frente ampla heterogênea e de negociações permanentes com setores de centro e de direita.
Entre 2023 e 2025 foram retomadas políticas sociais desmontadas nos governos Bolsonaro e Temer, com foco no combate à fome, na recuperação de programas sociais e no reposicionamento internacional do país. O PIB cresceu 2,9% em 2023, com avanço de 1,2% no primeiro semestre de 2024. O desemprego caiu para 6,5% em junho de 2025, mas a informalidade permaneceu elevada, com 39,1 milhões de trabalhadores nessa condição, equivalente a 38% da força de trabalho. Embora importantes, as políticas públicas do governo Lula não alteraram substantivamente a percepção de vida da maioria da população brasileira. Isto tem ocorrido sobretudo devido ao aumento do custo de vida, em especial o aumento do preço dos alimentos e dos aluguéis, e do endividamento da população provocado pelas altas taxas de juros praticadas no país.
As movimentações na sociedade civil
Embora em meio a uma conjuntura política adversa, surgiram iniciativas e movimentos na sociedade civil que obtiveram vitórias ideológicas e conquistaram o apoio da maioria do povo brasileiro. Em junho de 2024, movimentos de mulheres fizeram a campanha “Criança Não é Mãe” e se insurgiram contra o Projeto de Lei que buscava equiparar todas as formas de aborto ao crime de homicídio, inclusive as formas previstas na Constituição. Em novembro do mesmo ano, o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT) surgiu no cenário político, reforçando uma pauta histórica da classe trabalhadora, a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial, por meio da palavra de ordem “fim da escala 6×1”.
O governo Lula, por sua vez, apresentou a proposta de isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, com descontos para setores médios, beneficiando 15 milhões de pessoas, com a compensação pela taxação de 141 mil super-ricos do país, que deverão pagar impostos sobre sua renda.
Desafios políticos e tarefas estratégicas
O Plebiscito Popular por um Brasil mais Justo tem enfrentado três desafios centrais. O primeiro é superar a fragmentação da esquerda brasileira e articular uma iniciativa unitária concreta das forças populares no país. O segundo é dialogar e disputar a consciência social do povo brasileiro, enfrentando a narrativa da extrema direita e articulando lutas em torno de conquistas concretas. O governo precisa implementar medidas que representem uma melhoria substantiva na vida do povo brasileiro e atender as demandas dos movimentos populares, que organizam uma força social que sustenta um projeto popular, avançar com as reformas agrária e urbana. O terceiro é acumular forças em torno de um programa popular para enfrentar o neoliberalismo, o capital financeiro, a força da direita no Congresso e os valores defendidos pela extrema direita.
Nessa perspectiva, o Plebiscito Popular surgiu como uma ferramenta estratégica. Com mais de duas décadas de tradição, a iniciativa uniu organizações distintas em torno de uma ação unitária, pedagógica e massiva. Cumpriu o objetivo de dialogar com milhões de pessoas, organizar comitês populares em todo o país e pressionar governo e Congresso em torno de pautas concretas.
Debate com a população: justiça tributária e jornada de trabalho
Dois temas foram levados ao debate popular. O primeiro, a justiça tributária, expondo o caráter regressivo do sistema brasileiro: quase metade da arrecadação provém do consumo, enquanto apenas 23% incide sobre renda e patrimônio. O 0,01% mais rico paga, em média, 2% de imposto sobre sua renda total devido à isenção de lucros e dividendos vigente desde 1995, o que representa perda anual superior a 60 bilhões de reais. Enquanto isso, 1% da população concentra quase 28% da renda nacional, contra apenas 13% detidos pelos 50% mais pobres. A taxação de pessoas com altas rendas (grandes fortunas, heranças e dividendos) foi apresentada como medida de justiça social e financiamento de políticas públicas.
O segundo tema é a redução da jornada de trabalho, sem diminuição de salários e o fim da odiosa escala 6×1. O Brasil mantém 44 horas semanais, enquanto cresce o debate em todo o mundo sobre o tema e países vizinhos adotam 40 horas. Apesar de ganhos de produtividade, os salários permaneceram estagnados e o excesso de trabalho tem impacto negativo na saúde e na vida social. Experiências recentes em países europeus mostraram que jornadas menores podem elevar a produtividade, o consumo e o bem-estar social. Esses debates levaram o plebiscito para além do ato de votar, transformando-o em espaço de formação e diálogo.
Perspectivas políticas
A conjuntura mais recente tem sido marcada por pressões externas e aumento da instabilidade política. Os Estados Unidos impuseram sanções e tarifas de importação que impactaram setores produtivos, evidenciando a dependência brasileira. A extrema direita tem força no Congresso Nacional, mantém bases organizadas em segmentos sociais e dinamismo nas redes sociais, mesmo com Jair Bolsonaro condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As direitas se movimentam para as eleições de 2026 enquanto o governo enfrenta a conjuntura adversa no Congresso. As forças populares trabalham para retomar a iniciativa política e disputar a classe trabalhadora.
O resultado das eleições presidenciais de 2026 dependerá da capacidade de mobilização popular e da construção de um programa capaz de enfrentar o neoliberalismo e propor uma saída popular para a crise. Uma das conquistas políticas do Plebiscito Popular foi a combinação da defesa da soberania nacional, com pautas populares de interesses do povo brasileiro, como a taxação dos super-ricos e o fim da escala 6×1. Conferir um conteúdo popular à defesa da soberania é fundamental para denunciar o caráter antinacional, antidemocrático e antipopular da classe dominante.
O plebiscito foi lançado em meio a impasses com o Congresso Nacional, em julho de 2025, após o bloqueio de propostas do governo, com a derrubada dos decretos para mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Seu início foi marcado por forte mobilização, crescimento nas redes sociais e repercussão política. Os atos de lançamento por todo o país reuniram militantes, dirigentes e parlamentares, impulsionando os primeiros mutirões. A experiência demonstrou a importância de organizar coordenações estaduais, comitês populares, plenárias e cursos de formação para multiplicadores. A comunicação híbrida, combinando redes digitais e trabalho de base presencial, ampliou o alcance da iniciativa. O plebiscito obteve participação expressiva e consolidou um método de ação que permanece relevante.
O Plebiscito Popular de 2025 consolidou-se como experiência de mobilização, formação e pressão política. A unidade das organizações populares, a criação de estruturas organizativas, os trabalhos territoriais e comunicacionais e a ampliação do diálogo com a sociedade são acúmulos dessa construção e permanecem disponíveis para lutas futuras. O plebiscito demonstrou que essa metodologia é válida para a disputa de consciência, capaz de articular mobilização social com pressão institucional. O plebiscito cumpriu seu papel de envolver a sociedade em torno de temas estratégicos, fortalecer a unidade das forças progressistas e preparar terreno para os desafios que se colocam no horizonte político do país.
Igor Felippe Santos é membro da Coordenação Nacional do MST.
Paulo Henrique Lima é membro da Direção Nacional do Movimento Brasil Popular.
Referências
PLEBISCITO POPULAR 2025. Vote no plebiscito. Disponível em: https://plebiscitopopular.org.br/. Acesso em: 08 out. 2025.






